Crítica do Filme “O Passageiro”

O Passageiro é a quarta colaboração entre o diretor espanhol Jaume Collet-Serra e o ator sério, transformado em brucutu improvável, Liam Neeson. O diretor possui um currículo bastante interessante – filmes de terror medíocres como o remake de A Casa de Cera (2005) ou A Orfã (2009) – e basicamente filmes de ação genéricos estrelados por Liam Neeson, como Desconhecido (2011) e Sem Escalas (2014). Pode se dizer que o principal gênero cinematográfico do trabalho de Collet-Serra é “filme com Liam Neeson”, uma especialidade no mínimo peculiar.

Claramente, a quadrilogia de Collet-Serra com o seu ator de ação preferido tende a repetir certos aspectos: talvez Neeson seja um ex alguma coisa (como um mercenário ou policial), que talvez precise encontrar um objeto ou uma pessoa específica em algum ambiente fechado, mas com certeza o ator vai ser extremamente eficaz ao lidar com a situação. O Passageiro é especialmente parecido com Sem Escalas, você só precisa trocar o avião por um trem. Em ambos os filmes, o personagem de Neeson possui um tempo limitado para encontrar alguém dentro do veículo de transporte em que ele está viajando, enquanto recebe constantes ameaças por telefone e protege todos os outros passageiros.

A maior diferença entre as duas tramas talvez seja quanto ao lado emocional – em Sem Escalas, Neeson é um agente federal, ex-policial, alcoólatra e amargurado, lidando com uma grande ameaça enquanto realiza o seu trabalho, e em O Passageiro, o ator vive Michael Maccauley, um vendedor de seguros, ex-policial, que acabou de perder o emprego de 10 anos e está voltando para casa no mesmo trem que ele pega todos os dias. E ao contrário do protagonista de Sem Escalas, que perdeu a sua filha, Michael MacCauley ainda tem uma família para cuidar e se preocupar, e ele está, de certa forma, em casa. O incidente incitante da trama interfere a sua rotina, ameaça o status quo da sua vida atual, e obriga MacCauley a abandonar tudo o que construiu e voltar a realidade policial que ele já havia abandonado a tanto tempo.

Existe uma certa intimidade e familiaridade crua na história de MacCauley e isso é expressado de várias formas através do longa. Assistindo as primeiras cenas, principalmente a montagem de abertura, o forte tom “humano” apresentado parece combinar mais com um denso filme indie do que com um thriller de ação. Nisso, O Passageiro consegue se afastar um pouco de ser simplesmente mais um filme de ação genérico, a ambientação da narrativa é claramente muito importante na visão do diretor – Rotina é a palavra-chave – repetição, dores e alegrias cotidianas enfeitam a vida de “passageiro” (na falta da palavra americana, commuter, basicamente quem se desloca consideravelmente para o trabalho) de Michael McCauley. Isso se mantém como um típico “truque” de filmes de ação, a empatia gerada pelo regular guy que secretamente é um herói, mas esse truque pode ser bem executado ou não, e aqui ele cumpre o pretendido.

A direção não é ruim, mas no final das contas, a atuação de Neeson é a verdadeira culpada pelo sucesso dessa simpatia do protagonista. Neeson é um bom ator, não necessariamente apenas um bom ator de ação, no entanto ele também acaba sendo um bom ator de ação. Após a famosa trilogia de Busca Implacável (2008-20014), Neeson infelizmente ficou preso em um estigma de brucutu que dificilmente vai ir embora e parece que perdemos para sempre o Liam Neeson de grandes filmes como A Lista de Schindler (1993), e temos que aceitar isso. Assim, fica cada vez mais difícil levar o “novo filme do Liam Neeson” a sério, mesmo que não seja péssimo, chegou ao ponto em que dificilmente vai ser ótimo, e esse é o caso de O Passageiro.

Honestamente, O Passageiro é um thriller de ação que até entretém, mas definitivamente falha em ser muito memorável. Você pode esperar várias cenas intensas onde Liam Neeson parece um super-herói implacável em meio a situações adversas e é por aí. Esse provavelmente não é o tipo de filme que você vai recomendar a alguém ou se esforçar para ver no cinema, e sim, algo que pode ser agradável de se assistir no Telecine em qualquer dia mais parado da sua vida.

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