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Crítica do Filme “Bom Comportamento”

Bom Comportamento definitivamente não é uma experiência passiva no cinema. Esse é primeiro longa de grande distribuição dos irmãos Joshua e Ben Safdie, conhecidos por alguns dramas indie como Só Deus Sabe (2014), geralmente ambientados na cidade de Nova York (retratando facetas reais da cidade) e marcados por forte intensidade e constante movimento. Pela primeira vez, os irmão Safdie contaram com uma verba considerável para o seu longa-metragem e estamparam um nome conhecido nos pôsteres do filme. Acredito que o interesse do eterno galã vampiro, Robert Pattinson (o Edward da franquia Crepúsculo), na produção tenha ajudado consideravelmente com a distribuição mais abrangente de Bom Comportamento. E isso é uma ótima notícia – o grande público merece assistir aos filmes dos irmãos Safdie e espero que esse seja só o começo.

A história é simples: O personagem de Pattinson, Connie Nikas, tenta roubar um banco com o seu irmão Nick Nikas (que é deficiente mental), interpretado pelo diretor, Ben Safdie. O assalto dá errado e após uma perseguição pela cidade, Connie escapa, mas o seu irmão é levado para a prisão. Connie claramente sente-se responsável pelo irmão e, ao longo do filme, fica claro que o personagem acredita que, acima de tudo, ele sabe o que é melhor para o seu irmão e não quer que ninguém entre no caminho da relação dos dois. Os créditos iniciais só aparecem após a prisão de Nick, indicando que os primeiros 20 minutos de filme são apenas um prólogo. A história do longa gira em torno da saga de Connie em tentar tirar o seu irmão da prisão e, embora a trama do filme seja talvez até um ponto fraco em meio a maiores conquistas, o desenrolar dos eventos consegue surpreender. Durante o frenesi da situação em que se encontra (e da sua vida em geral) o protagonista parece, não se aproximar, mas se afastar cada vez mais do seu objetivo ao longo do filme.

E por que Bom Comportamento não é só mais um filme de perseguição qualquer? Por que os irmão Safdie realmente se importam em fazer bom cinema. O filme se destaca dos demais filmes do gênero (e de outros filmes em cartaz), simplesmente pela forma em que foi concebido. A estética é bastante ousada para o grande circuito cinematográfico – Bom Comportamento é um filme que incomoda.

A tonalidade do filme é escura, a iluminação geralmente é fraca e deprimente. A câmera parece nunca repousar onde seria confortável para os olhos do espectador. Em vez disso, ela prefere focar em closes extremos no rosto dos personagens e movimentos estranhos ao redor do ambiente. Uma das cenas chave do filme, por exemplo, é toda filmada de cima (estilo visão de helicóptero) e muito longe da ação, talvez uma escolha estranha para uma cena tão importante, mas o resultado foi incrível e a cena foi realizada brilhantemente. Inclusive funciona como uma bela metáfora visual para o crescente afastamento do protagonista e o seu objetivo.

Como dito anteriormente, grande parte de Bom Comportamento consiste em closes, o que atribuí certa importância para os atores (e personagens), porém, infelizmente, a maior falha do filme é uma aparente falta de motivação dos personagens. Esse é o clássico filme motivado pela própria trama e “por que sim”. Nunca aprendemos muito sobre a relação dos irmãos ou o porquê deles decidirem roubar um banco, nunca sabemos de verdade o que esses personagens querem. Entretanto, existe sim algum subtexto relevante entre a relação dos dois e a conduta que cada um possui quanto a vida – Connie quer resolver tudo e está sempre agitado, Nick não consegue lidar com grandes comoções e busca tranquilidade. Connie aponta precisar “cuidar” do seu irmão para trazer algum ordem para a sua própria vida e Nick, bom, talvez levasse uma vida melhor sem a presença do seu irmão.

Por sinal, a cena de abertura, protagonizada por Nick (interpretado por um dos diretores do filme, não por um ator profissional) é uma das melhores cenas do filme. Logo de cara, o espectador se depara com um close no rosto de Ben Safdie (claramente perturbado) enquanto responde perguntas a o que parece ser algum tipo de psicólogo. A cena é muito bem conduzida e o mérito é todo da emoção e honestidade de Safdie como ator. Lágrimas escorrem pelo semblante sem expressão de Nick e é impossível não sentir a força dessa cena. Algo que, ironicamente, o ator profissional (e estrela do filme), Robert Pattinson, não consegue fazer durante o filme.

Além do trabalho de câmera, algo que contribui imensamente com a desconcertante sensação de agonia que paira ao longo da trama, e que há de ser citado (e elogiado), é a trilha sonora. O filme conta com uma trilha 100% original composta por Oneohtrix Point Never e ela é essencial para o filme. Point Never é um músico eletrônico experimental, que flerta com gêneros como vaporwave e synthpop, e para Bom Comportamento compôs uma trilha digna de Vangelis e a famigerada trilha de Blade Runner uma constante sinfonia quebrada de sintetizadores. Só que o filme dos irmãos Safdie não é um cyber-noir distópico, é apenas um suspense de perseguição contemporâneo. Naturalmente, caiu como uma luva. A trilha de Point Never é o toque final na criação da experiência sufocante que o filme provoca. Uma decisão ousada e uma adição incrível à obra dos irmãos Safdie.

Quando eu sentei na sala de cinema, logo pensei que o longa seria um daqueles filmes que a gente vê e no dia seguinte já não lembra mais. No entanto, tenho que admitir que eu estava muito enganado. Se existe um mérito que Bom Comportamento com certeza possui, é ser memorável. Esse não é um filme que você vai ver todos os dias e é algo que certamente vale a pena comentar com os outros.

Se você quiser ser desafiado pela sala de cinema, vá em frente e apóie os irmãos Safdie.

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