Exclusivo: Repórter da TV Cultura, Ricardo Ferraz fala sobre a carreira, jornalismo e cobertura política

Registro Pop começa a postar a partir de hoje (13) uma série de seis entrevistas com repórteres das principais emissoras brasileiras onde representarão todas as regiões (Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte), além de um correspondente internacional. A ideia aparece como uma forma de fazer uma homenagem ao Dia do Repórter que é comemorado nesta quinta-feira, 16 de fevereiro.

Quem abre nosso especial é o repórter Ricardo Ferraz, como representante da região Sudeste com seu exímio trabalho na TV Cultura em São Paulo. Escolhemos inicar com o jornalista pela sua versatilidade em falar e cobrir os mais diversos temas como o impeachment da ex-Presidente Dilma Rousseff, construção da Usina de Belo Monte, combate a corrupção, meio ambiente e entre outros.

1º. – Assim como a TV Brasil, a TV Cultura é uma das poucas redes de televisão que oferecem conteúdo educativo e infantil para os telespectadores. Porque a TV Cultura é tão importante tanto para o paulista quanto para os brasileiros que têm a sorte de receber o sinal da emissora nas suas casas?

Acredito que conseguimos oferecer ao telespectador uma visão menos “contaminada” dos fatos. Na Cultura não nos preocupamos apenas em informar, mas também em explicar o porquê de determinado acontecimento. Em um país com um déficit educacional enorme, julgo que isso é importante Sinto que somos movidos mais pelo interesse público do que pela simples busca pela audiência, privilegiando mais os temas que são relevantes para o debate de ideias no país, do que aquilo que simplemente tem apelo junto aos telespectadores.

2º. – Logo após o assassinato do jornalista Tim Lopes, em 2002, você fez uma série de reportagens batizada de “Monte Azul, uma favela digna”, cuja proposta era trazer aos telespectadores um olhar diferente sob uma favela de São Paulo. Passados quase 15 anos desse trabalho, o que mais aprendeu com ele?

Aprendi que o problema da violência tem solução. Obviamente ela passa pela questão da segurança pública, mas que é preciso que as comunidades carentes recebam mais do que a presença da polícia em suas casas. É preciso garantir o acesso a direitos básicos que farão a diferença na vida delas e da sociedade como um todo. Aprendi também que a solidariedade e empatia são valores muito mais presentes nessas comunidades do que em muitos bairros nobres de nossas grandes cidades. É um absurdo generalizar morador de favela como bandido, e infelizmente vemos isso em nossa imprensa diariamente.

3º. – Para quem é familiarizado com a programação da TV Cultura, como eu, é comum vê-lo nos telejornais da casa cobrindo o atribulado universo político de Brasília. É verdade que a cobertura da pauta política é sempre mais difícil de ser feita? Ou há um gostinho especial por ser, muitas vezes, a principal fonte de informação do noticiário do dia?

É sempre difícil para alguém como eu, que não está todo dia cobrindo o Congresso Nacional, o Palacio do Planalto e o STF chegar para uma grande cobertura. Não tive a oportunidade de cultivar fontes previamente como os colegas que cobrem política em Brasília fizeram. Quando há uma grande cobertura, todos correm atrás de informações privilegiadas e é natural que as fontes repassem para quem já conhecem e confiam. Felizmente, alguns deputados, senadores e ministros, especialmente de São Paulo, já conheciam o meu trabalho e me passaram informações importantes. Cheguei até a antecipar algumas notícias ao vivo no Jornal da Cultura, como a separação da votação do impeachment da ex-presidente Dilma em duas partes: o afastamento em si e a perda dos direitos políticos.

4º. – Numa entrevista ao “Portal Imprensa” em 2014, você disse que não se mistura viagem a lazer e à trabalho. É possível ignorar o lado jornalista quando se está viajando apenas por diversão?

Não. Tento mais não consigo fazer essa separação em 100% dos casos. Acabo de voltar de férias pela Bolívia e Peru e minha filha ficou muito brava comigo quando me deparei com uma manifestação de mineiros em La Paz. Em vez de desviar o caminho, fui lá tirar foto e perguntar para o líder da manifestação o que eles estavam reivindicando. Meus filhos também quiseram ver um espetáculo de luta livre de Cholas (as mulheres andinas). Achei aquilo tão curioso que fiz uma reportagem. Vai sair em breve em uma revista.

5º. – Em 2012, você fez outra ótima série de reportagens sobre a polêmica Usina de Belo Monte que afetaria o meio ambiente e o território das populações indígenas. Assistindo-a novamente é possível perceber a falta de projeção que os índios tinham, e ainda tem, para mostrar ao resto do Brasil o quanto que aquele projeto afetaria seu modo de viver. Você acredita que a imprensa continua sendo o microfone dessas comunidades? Até porque, não vejo nenhum político paraense se opondo a Usina pelo fato de violar terras sagrada dos índios.

A situação indígena no Brasil é muito complexa. Por um lado somos um dos países com uma política de demarcação de terras das mais avançadas do mundo. Por outro, as simples demarcações não significam que os índios terão o modo de vida preservado. As pressões econômicas são muito fortes e as consequências para essas populações são gigantescas. Uma vez que o contato se estabelece é muito dificil conciliar uma maneira ancestral de viver com esses interesses econômicos do mundo moderno. Minha série em Belo Monte procurou evidenciar esses conflitos. A Imprensa se tornou fundamental para trazer isso à tona, já que as decisões são tomadas nos grandes centros urbanos, distantes das populações que serão diretamente afetadas. Mas sinto que o trabalho ainda é insuficiente. Tem muitos conflitos no Pará e no Mato Grosso que não estão sendo mostrados.

6º. – No passado, você foi moderador de alguns debates promovidos pelo Ministério do Meio Ambiente, além de ter participado de outros encontros que tinham o meio ambiente como pauta principal das discussões. Será que o jornalismo ainda subestima muito esse tema? Não precisaríamos de programas com abordagens mais fáceis para que a população possa entender que dependeremos do bem estar do planeta para um futuro melhor?

Sem dúvida precisamos de mais espaço nessa área. O jornalismo ambiental no Brasil deveria ser mais explorado. Temos a Amazonia, com sua imensa biodiversidade, problemas de desmatamento e todos os desafios do aquecimento global. Infelizmente, esse tema ainda é visto como coisa de eco chato. É preciso torná-lo mais atraente. Mas não acho que essa área seja mais árida do que política e economia,
por exemplo, que tem espaço garantido. Às vezes é uma questão de prioridades dos veículos de imprensa.

7º. – Pelo que pude constatar, você é o fundador do Movimento Boa Praça. Poderia contar um pouquinho do projeto para nossos leitores?

Essa é uma conversa bem longa. Mas há pouco mais de oito anos me juntei a um grupo de vizinhos que começou a se incomodar com a situação de algumas praças da zona oeste de SP, onde moro. Começamos a nos reunir e descobrimos que poderíamos fazer muita coisa pela cidade. Iniciamos promovendo piqueniques e encontros entre vizinhos e acabamos fazendo duas reformas grandes em praças e uma lei que permite a criação de conselhos de moradores para uma gestão mais participativa do espaço público. Considero que a vida nas grandes cidades é o desafio do nosso século e tive muito prazer em me engajar nessa causa.

8º. – Em 2002, você venceu o “Prêmio Mídia da Paz”, concedido a jornalistas que tenham produzido as melhores reportagens relacionadas à cultura da paz. O quão importante foi ser reconhecido com tamanha premiação?

Fiquei muito feliz porque foi um trabalho que fugiu da velha fórmula “cadê a polícia? O estado precisa acabar coma violência!!!”. O Tim Lopes tinha acabado de ser morto e a Globo batia nessa tecla todo dia. O prêmio tinha sido criado pela Unesco, então foi muito importante para a minha carreira. Mais tarde, conquistei o prêmio Abrinq também, que homenageia quem se destacou em reportagens que privilegiam a infância. Assim, fico contente que o meu trabalho tenha tido repercussão em áreas em que o país ainda precisa avançar.

9º. – Mesmo sendo clichê, não resistirei em perguntar qual foi a reportagem que mais lhe marcou nesses anos todos de profissão?

Não teve uma única. “Monte Azul, uma favela digna”, foi importante pelo prêmio e pela experiência de me mudar para uma favela, “Infancia roubada” foi bacana também pelo prêmio. Mas teve coberturas importantes em que tive o privilégio de ver a história acontecer na minha frente, como a tragedia do Rio Doce em Mariana, o conclave do Papa Francisco, a cobertura do impeachment… algumas matérias menos “glamourosas” são igualmente importantes. Acabo de voltar do Espírito Santo para cobrir a crise na segurança pública e me deparei com situações que acabam marcando muito porque se apresentam como situações complexas em que os dois lados tem um pouco de razão. Nesse caso, a dificuldade das famílias dos PMs e o impacto da greve na vida da população que sofre com a violência.

10º. – Para encerrar, qual conselho você daria para nossos leitores que sonham em viver do jornalismo um dia?

Leiam muito, exercitem seus textos, estudem para conhecer a história e a realidade do país que estão cobrindo, sejam implacáveis com autoridades e poderosos, mas condescendentes com os humildes e desfavorecidos, não esperem ficar ricos, mas estejam preparados para uma vida sem uma rotina estabelecida e cheia de surpresas.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.