Repórter da RecordTV, Adriano Baracho fala sobre desafios do jornalismo no norte do Brasil

Dando continuidade ao nosso especial da semana do “Dia do Repórter”, que acontece na próxima quinta-feira (16), o Registro Pop entrevistou um novos talentos dessa geração de jornalistas que não só representam a qualidade desses profissionais na região norte, como também em todo o Brasil.

Formado na Faculdade Ipiranga, uma das principais instituições privadas do estado do Pará, Adriano Baracho começou sua carreira no telejornalismo em setembro de 2013 como estagiário e produtor na RecordTV de Belém, até tornar-se repórter da TV Vera Cruz Parauapebas em setembro d 2016.

1º. – A TV Vera Cruz em Parauapebas é bastante nova, mas mesmo assim a emissora estreou na cidade com sinal digital. Acredito, sinceramente, ser fundamental que as grandes emissoras invistam cada vez mais em tecnologia para levar informação ao interior, como também permitir que ele se mostre e se comunique com o resto do Brasil. Como você enxerga essa relação?

Sem dúvida, é fundamental esse investimento em tecnologia. A TV Vera Cruz é a primeira emissora do interior do Estado com sinal digital, porque sabemos que nos próximos anos o sinal analógico será desligado para se adequar a nova era. Para nós, aqui do interior do Pará, esses investimentos têm gerado desafios constantes, pois boa parte da população ainda tem televisores analógicos, ou seja, aqueles aparelhos mais antigos ficam obsletos. E isso faz com que a cada dia tenhamos que conquistar nossos telespectadores da maneira que pudermos, o que de certa forma também é gratificante. Como retorno, temos mais qualidade de imagem e levamos informações para nosso público local e também para o restante do Brasil.

2º. – Imagino, analisando do posto de vista de quem mora numa cidade grande, que não deve ser fácil ser jornalista em qualquer interior do Brasil. Seja, muitas vezes, pela falta de recursos, conflitos com lideranças políticas locais e entre outros problemas. Para você, o quão desafiador é ser repórter no interior do Pará?

Nossa, demais! Ser repórter e fazer jornalismo diário no Brasil é bem difícil mesmo. No interior do Estado esses conflitos se intensificam, seja pela linha editorial e pelas questões políticas, que muitas vezes acabam atrapalhando muito o trabalho de um repórter, não só aquele da televisão. Mesmo assim, esses conflitos também acabam nos ensinando muito. Em cada reportagem que faço, procuro ser fiel aos conceitos que aprendi e com isso, mesmo tendo muitas vezes que “maneirar” na hora de denunciar algo ou mostrar algum problema, não deixo de ouvir os dois lados.  Além disso, outro problema é a desvalorização de um profissional do interior. Todos sabem que jornalista já não é remunerado como deveria, imagina um repórter de interior do Estado. (Risos)… Mas eu procuro sempre absorver o máximo de experiência e aproveitar as oportunidades. A caminhada é longa e só estou começando.

3º. – Você começou na televisão em 2013 quando ainda era estagiário na TV Record Belém. O que o Adriano iniciante de 2013 tem de diferente com o Adriano repórter de hoje? Mais maduro? Mais experimente?

Vejo uma diferença grande, mesmo que tenha passado apenas três anos de quandos iniciei na televisão. Primeiro porque eu era “zerado” quanto a experiência em TV, só tinha noções básicas daquilo que aprendi na faculdade e quando se entra em uma redação, o choque é enorme. Eu ficava encantado com aquela correria de fechamento de jornal e ao mesmo tempo desesperado (risos), porque não tinha muito faro para garimpar pautas e isso me deixava a ponto de ter um ataque. Mas com o tempo e ajuda de muitos profissionais competentes e colegas, consegui  ‘entrar no ritmo’ e ficar apegado em tudo. De lá pra cá, consegui realizar um dos meus maiores sonhos que foi quando tornei-me repórter. Sempre admirei esse papel e corri atrás para ter minha primeira experiência. Mesmo em pouco tempo de reportagem, ja evolui muito como pessoa e como profissional. Aprendi a valorizar cada oportunidade e sempre buscar aprender. Não podemos ficar acomodados e achar que já estamos bons o suficiente. Estou sempre em busca de evolução e procuro melhorar e buscar coisas novas em cada trabalho. Ainda tenho muito caminho pela frente e sigo firme e forte.

4º. – Porque trocou a TV Record Belém pela TV Vera Cruz Parauapebas? Foi convidado ou você realmente gosta desse jornalismo que traz mais adrenalina e emoção ao repórter?

As duas coisas. Fui convidado por um dos diretores da TV Vera Cruz [René Marcelo], que é apresentador do Balanço Geral Pará. Uma das experiências dentro da Record Belém foi produzir o Balanço Geral, que me ensinou muito. Eu também sempre demonstrei interesse em fazer reportagem. Quando surgiu a TV Vera Cruz, fui convidado pra encarar esse desafio em outra cidade e como gosto muito de sair da zona de conforto, aceitei na hora. Não me arrependo! Já tive, em pouco tempo, a oportunidade de fazer várias matérias de repercussão no Estado e também para todo Brasil, o que não esperava que acontecesse tão rápido, como ver minhas reportagens no Cidade Alerta com Marcelo Rezende, um profissional que admiro muito. Acredito que tudo tem sua hora e tudo de bom que me aconteceu e vem acontecendo, é reflexo do meu esforço. Mudar de cidade e deixar família, amigos e relacionamento, não é fácil, mas tenho recebido apoio de todos, não só os mais próximos, mas também de pessoas que me acompanhavam desde a época de estágio e hoje me mandam mensagens parabenizando pelo trabalho. Isso é muito gratificante.

5º. – O Pará acaba de sair de uma campanha eleitoral com mais de 20 ocorrências de crimes e irregularidades eleitorais, além de estar a beira de uma crise generalizada de serviços básicos a população, como segurança e saúde. Como que você, jornalista e cidadão, enxerga todos esses problemas? Acredito que deve ser um desafio duplo, tanto para fazer a cobertura de tantos problemas, quanto viver em meio a tamanha desordem.

O Pará é um Estado muito rico, cheio de belezas, culinárias e coisas peculiares que eu particularmente amo. Claro que como todos os lugares do Brasil, tem seus diversos problemas sociais e estruturais que são, muitas vezes, resultado de inúmeros erros administrativos que iniciam em uma má gestão de municipío, esbarra na má gestão de Governo e até mesmo na própria situação do país. Um triângulo nada amoroso que traz para a sociedade muitos problemas sociais. Infelizmente nosso Estado está no ranking internacional dos mais violentos do mundo. Viver em meio a tudo isso é catastrófico. Como repórter e cidadão, acompanhar esses índices aumentando todos os dias é muito triste. Mas como profissional , entendo a importância de cobrir esses fatos, pois é preciso mostrar sim que nossa cidade/estado/país é violento, para cobrar explicações dos nossos representantes que foram eleitos pelo voto do povo. Se nós, como profissionais, da imprensa não mostrarmos, vai parecer que está tudo uma maravilha. E não está!

6º. – Você faz com regularidade o jornalismo investigativo para o “Balanço Geral Parauapebas”, que infelizmente, é responsável por mostrar o pior lado da sociedade com assassinatos, roubos e entre outras barbaridades. Acredito que ao mesmo tempo que é desafiador trazer assuntos tão pesados ao telespectador, também deve ser gratificamente por estar, de certa forma, prestando um serviço à população que tanto se preocupa com a sua segurança. Ou estou engando?

Com certeza! O Balanço Geral é um programa jornalístico bastante peculiar. Tem uma linha editorial bastante realista do ponto de vista de querer mostrar o que está acontecendo na sua cidade. É assistido por  telespectadores de classe C, D e E, justamente porque vai até essas comunidades mais carentes mostrar o que elas vivem todos os dias. Mostrar que a violência faz esses bairros serem mais afetados, que o saneamento é precário, que os postos de saúde dos bairros estão sem médicos, remédios e etc.. Todos esses pontos são mostrados e a população quer saber quando isso vai melhorar. E nós também. O desafio de reportar a realidade das comunidades é com o objetivo de cobrar uma resposta, não é só “mostrar desgraça” como muitos falam por ai. Vai muito além disso.

7º. – Quais foram as suas principais referências quando decidiu entrar para o jornalismo de televisão? Alguém que você sempre acompanhou na TV? Algum professor na faculdade?

Tem vários profissionais que admiro muito.  Na época de faculdade, uma das minhas inspirações é o professor João Plaça. Uma referência no jornalismo paraense, que tive a oportunidade de ter como professor de telejornalismo. Nessa época acompanhava muitos telejornais e ficava sempre de olho nas reportagens de Nara Bandeira e Anna Paula Mello, ambas da Record à época. Quando estagiei na Record e fui produzir os links (entrada ao vivo do repórter), advinha quem fui trabalhar lado a lado? Justamente com as duas. Tive muita sorte e foi justamente com elas que aprendi muito sobre reportagem e também sobre ética. Sequenciamente, foi só aumentando minha admiração e vontade de um dia fazer o que elas faziam. Já nacionalmente, os trabalhos feitos pelo Caco Barcelos sempre me deixaram boquiaberto, pois ele é realmente incrível. Em reportagem policial, aprendendo muito com o Rafael Polito. Ele conta uma história como ninguém. Tem muita gente boa, procuro sempre extrair algo desses feras.

8º. – Sempre quando vejo um jornalista competente e talentoso na televisão, como é o seu caso, me pergunto – “Porque será ele/ela quis desempenhar esse ofício? O que lhe motivou?” Então gostaria de lhe questionar exatamente isso – Porque jornalismo?

Acho que o jornalismo me escolheu. Na época do ensino médio, não sabia que curso iria fazer. Fui pesquisando e cheguei na área de humanas. Depois fiquei em dúvida entre publicidade e jornalismo. Por mais afinidade com textos e linguagem de televisões, comecei no jornalismo. Desde então, o amor pela profissão foi só aumentando. Hoje me encontrei no que me faz bem e não me arrependo de nada.

9º. – Mesmo sendo clichê, não resistirei em perguntar qual foi a reportagem que mais lhe marcou nesses anos de profissão?

Eu lembro muito das reportagens que fiz, mas há uma em particular que me marcou bastante. Foi a minha primeira reportagem em rede nacional. Lembro que cheguei a tarde na redação e meu editor disse que tinha uma matéria “bapho” pra fazer, como ele mesmo tem o costume de falar. O repórter da manhã tinha se esquivado pra fazer. Tínhamos recebido uma denúncia de uma ação truculenta de dois policiais em um posto de gasolina. Olhei minuto por minuto do circuito de segurança e realmente a ação dos dois policiais foi absurda. Um deles dava chutes gratuitamente em um homem e depois saiu arrastando pelo posto. Em seguida, a mulher da vítima grita dizendo que é advogada e que eles não poderiam fazer aquilo. O policial então dá um soco no rosto da mulher. Não hesitei e fiz a matéria. Fui ao posto de gasolina onde ocorreu e gravamos com a dona. Ouvimos as vítimas e depois procuramos os policiais, que preferiram se manifestar por meio de nota. Antes de entregar a matéria no dia seguinte, uma polêmica gigantesca entre a imprensa e os policiais já tinha se formado. Algumas emissoras, com medo de retaliação, até desistiram de colocar a reportagem no ar. Conversei com meu editor e em comum acordo, acordamos que o certo era exibir. Pronto. Matéria foi pro ar no Balanço Geral local. Depois entrou, no mesmo dia, para o Balanço Geral do Estado e consequentemente nos outros telejornais da Record Belém. Depois disso começou o ‘massacre’. Uma discussão enorme nos grupos da imprensa sobre o certo ou errado. Muitos defenderam as vítimas. Muitos defenderam os policiais e muitos nos criticaram por termos exibido. Bem, eu como jornalista, estava com sensação de dever cumprido. Tinha ouvido todos os lados da história e não tinha visto como denegrir a imagem da PM. O fato era isolado e merecia punição de acordo com a legislação. Bem, na sexta feira quando jamais esperava, meu editor liga dizendo que a matéria estava passando no Cidade Alerta com o Marcelo Rezende. Na hora fiquei elétrico, doido pra ver, mas o problema é que estava na rua. Jamais imaginava que em pouco tempo (menos de dois meses na reportagem), meu trabalho iria ser levado a rede nacional. Assisti depois no site e fiquei muito orgulhoso. Depois, a notícia ganhou ainda mais força na população e “sofremos” bastante com isso, inclusive em relação a retaliações dos policiais, que tentaram impedir a cobertura de ocorrências. É claro que com o passar do tempo, tudo voltou ao normal. Não me arrependo de ter metido a cara e feito. Fiz meu papel como jornalista.

10º. – Apesar de ainda ser novo na profissão, gostaria que encerrasse dando um conselho para todos os nossos leitores que sonham em viver do jornalismo um dia.

Ah, jornalismo é só amor, não é mesmo? Uma profissão linda e com um papel muito importante para a sociedade. Para quem se identifica ou até mesmo sempre sonhou em fazer jornalismo, digo que vale a pena. Tem que “meter a cara” mesmo e se achar, cada um em sua área. Seja reportagem, edição, fotografia, impresso. O jornalismo é muito amplo e tem um leque de oportunidades, basta insistir e não desistir. Ah, fazer jornalismo, principalmente na televisão, é esquecer  finais de semanas livre, comemorações em família ou viagens a lazer. Somos parecidos com médicos, que têm plantões, só que recebemos “beeem” menos. No mais,  vida de jornalista é linda e não desistam dela por qualquer obstáculo.

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