Crítica do filme: Paixão Obsessiva

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Paixão Obsessiva

Paixão Obsessiva (Unforgettable) – tanto a tradução quanto o título original cairiam como uma luva para um romance de banca de jornal ou para uma telenovela mexicana. Não é de se espantar que o filme, portanto, se valha dos clichês de ambos os gêneros.

O roteiro assinado por Christina Hodson e David Johnson traz a história de Julia (Rosario Dawson), que se muda para Califórnia com o objetivo de morar com seu noivo David (Geoff Stults). Ela, que havia passado maus bocados na mão de um ex com quem manteve um relacionamento abusivo, vê nessa oportunidade a chance de construir uma nova vida. Seria um rumo promissor se o seu novo parceiro não fosse divorciado de uma mulher, Tessa (katherine Heigl), ainda tão inconformada com o término do casamento.

Determinada a ter seu marido de volta, ela usará as ferramentas disponíveis para alcançar o intento. Sua filha Lily será apenas uma delas. As redes sociais e a prerrogativa do anonimato na internet também serão aliadas suas. Metódica, elegante e com uma aura fria, Tessa arquiteta um plano enquanto finge aceitar as direções que as coisas estão seguindo entre Julia e David. Assim, Katherine Heigl incorpora a personagem de uma maneira convincente, e faz um ótimo contraponto com Rosario Dawson que dá mais cores ao seu papel.

Entretanto, como se não bastasse apresentar uma proposta batida, a trama não desenvolve grande personalidade em sua execução e comete alguns deslizes. O primeiro deles é que em todos os momentos em que há picos de tensão, as cenas não engajam, não empolgam e não possuem desfechos satisfatórios. Um exemplo é o momento em que é utilizada uma câmera subjetiva. A intenção é válida, o resultado é que desaponta. O suspense nunca é atingindo, e a solução para esses pequenos conflitos são repetitivas e anticlimáticas.

Outro ponto fraco é o ritmo da narrativa, que apesar de lançar mão de várias cenas curtas, não consegue administrá-las de uma maneira menos entediante. A história deveria instigar, mas se perde em cenas descartáveis ou pouco inventivas. Ao longo de toda a projeção, a personagem Tessa aparece incontáveis vezes diante do espelho. Isso tudo para reforçar o seu narcisismo e a sua preocupação em se manter polida e irretocável. Já no encerramento do filme, por uma razão risível, entendemos o porquê a diretora Denise Di Novi bateu tanto nessa tecla.

Aliás, Paixão Obsessiva sofre uma carência de sutileza. Para fazer com que o público entenda de uma vez por todas que Tessa possui certa compulsão por organização e limpeza, há uma cena de poucos segundos em que ela surge esfregando uma prataria opaca, que surge do nada. Para que o público também entenda que a maneira com que a personagem trata sua filha é um reflexo da forma como ela própria foi criada, um diálogo expositivo envolvendo a primeira aparição da avó da menina esfrega na nossa cara a fraqueza dessa relação familiar.

É inevitável reduzir a história a duas mulheres ao ponto de se matarem por causa de um homem inerte. Enquanto elas são apresentadas como pessoas problemáticas, com passagens pela ala psiquiátrica, a função do marido é ser apenas um troféu, uma desejável recompensa. E quando chegamos ao clímax da narrativa, parece que o próprio filme está cansado consigo mesmo. O conflito se desenrola de uma maneira previsível, pouco crível, e cheia daqueles absurdos que fazem a gente se indignar com a maneira burra com que personagens agem nos momentos mais periclitantes de uma narrativa.

Paixão Obsessiva é mais do mesmo e possui pouquíssimos momentos interessantes. Talvez nem como entretenimento passageiro funcione. Vida que segue.

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