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Crítica do filme: Antes Que Eu Vá

O ensino médio norte-americano não costuma ser lembrado pela candura e delicadeza no trato entre os estudantes. Muito pelo contrário. São inúmeras as histórias que abordam justamente a prática do bullying nas interações sociais dos adolescentes desse período escolar. Antes que eu vá (Before I Fall) é mais um retrato da complicada fase, marcada por descobertas e experiências determinantes para o resto da vida.

O filme tem como ponto de partida uma voz feminina em off que introduz a narrativa nos avisando que estamos prestes a acompanhar seu último dia de vida. Depois, sabemos que a narradora é Samantha (Zoey Deutch), uma colegial que acorda ansiosa em ir à escola para participar do “dia do cupido”. Na data, uma espécie de correio elegante acontece, por meio do qual os alunos enviam rosas com bilhetes a suas paqueras.

O roteiro já deixa claro desde o início da projeção quem é quem na história. É assim que entre os personagens há os seguintes tipos clássicos: a patricinha popular e maldosa (Halston Sage), as suas coadjuvantes (Cynthy Wu e Medalion Rahimi), o garoto com quem todas querem ficar (Kian Lawley), o desajeitado (Logan Miller ) e a “Carrie, a estranha” (Elena Kampouris). No caso, a protagonista Samantha, ou Sam, pertence ao clube das meninas malvadas.

Bem executada e empolgante, a primeira metade do longa entrega um conflito instigante ao perturbar a linearidade da narrativa após a morte da personagem principal (o que já fora anunciado no prólogo). É feito, inclusive, um sutil jogo de expectativa com o público que naturalmente vai querer saber qual será o momento e a circunstância em que tal fato irá acontecer. A tensa cena da discussão que acontece em uma festa é simbólica pela decisão estética de iluminar os personagens com uma luz vermelho sangue.

É notável a direção da americana Ry Russo-Young no encaminhamento da trama, na medida em que consegue desenvolver os dramas dos personagens no decorrer do filme. Existem algumas explicações e soluções que são já são cartas marcadas, como o divórcio dos pais que acaba traumatizando e influenciando o comportamento da filha. Ainda que não sejam exemplares, o uso desses elementos também não atinge o extremo de soarem forçados. No geral, o desenvolvimento dos conflitos é feito de forma eficiente. Já a atriz Zoey também acerta ao conseguir imprimir de forma convincente a evolução de sua heroína.

O problema talvez se encontre nos personagens arquetípicos e estereotipados. A resolução de toda a questão da história também deixa a desejar. O filme assume uma posição clara de otimismo, mas falha ao pensar que a solução para os problemas suscitados é transformar a adolescente problemática em uma bruxinha do bem. Desse modo, o último ato se mostra bastante irregular e beira o piegas em certos momentos, tanto pelos diálogos quanto pela inserção de trilha sonora previsível.

Ainda que não impressione em termos de enredo e construção de personagem, Antes Que Eu Vá finaliza com saldo positivo. Seu objetivo é focar em um drama juvenil, pouco ambicioso, mas com uma “moral da história” que chama atenção para algumas assuntos sérios concernentes à adolescência. Nesse ponto, é eficaz.