Crítica do Filme “Trama Fantasma”

Desde os anos 90 o diretor Paul Thomas Anderson vem enriquecendo o mundo cinematográfico com as suas obras bastante autorais. Anderson é conhecido por ser o diretor/roteirista responsável por filme como Boogie Nights (1997), pelo dramalhão de mais de três horas, Magnólia (1999), que foi logo sucedido por uma comédia romântica com Adam Sandler, Embriagado de Amor (2002), e pela sua magnum opus, Sangue Negro (2007), que conquistou o segundo dos três Oscars de Daniel Day-Lewis e é considerado um dos maiores filmes da década de 2000. As obras de Anderson já coletaram 25 indicações ao Oscar e ele já se provou um diretor que não tem medo de tentar coisas novas, além de ser um roteirista fenomenal. É sempre interessante acompanhar o quê Paul Thomas Anderson vai tirar da cartola na próxima vez.

Também é sempre um deleite assistir Daniel Day-Lewis atuando. Os amantes da sétima arte ganham agora um verdadeiro presente, materializado na oportunidade de ver Day-Lewis interpretando pela última vez antes de sua aposentadoria, com o mais novo romance de época de Paul Thomas Anderson, Trama Fantasma.

Um dos indicados a categoria de melhor filme no Oscar 2018, Trama Fantasma é deliciosamente intrincado, equilibrando com maestria um tom mais sério e sóbrio, com um clima quase leve e romântico.A estrutura do filme harmoniza perfeitamente com a premissa da história e com a postura do protagonista, o estilista Reynolds Woodcock, vivido por Day-Lewis. Reynolds é o mais famoso criador de vestidos de Londres, um homem culto, rico, bonito e admirado por todos. Ao mesmo tempo, o estilista vive imerso em seu trabalho e pouco se encaixa no fluxo da sociedade, cheio de TOCs e manias, Reynolds não permite que muitas pessoas entrem na sua vida e pode ser considerado um solitário, exceto pela companhia de sua irmã, e mandante nos negócios, Cyril (Lesley Manville), e pelo seu time de costureiras, que vive na sua casa.

Reynolds aprecia a sua rotina acima de tudo. Pequenos barulhos e interrupções não planejadas acabam completamente com o seu dia, e a forma com a qual Anderson e Daniel Day Lewis apresentam esses momentos é espetacular. A parceria entre o diretor e o ator funciona com a precisão de um relógio suiço e assistir esses singelos momentos de irritação, ou qualquer outro momento de Reynolds Woodcock, nunca perde a graça.

As coisas mudam um pouco na casa do estilista quando ele decide trazer uma jovem e humilde garçonete para dentro de sua casa, Alma Elson, interpretada com muita segurança pela atriz Vicky Krieps. Reynolds transforma Alma em sua modelo principal/musa/amante/namorada e até mãe em alguns momentos, como ele aparentemente já fizera com tantas outras garotas. Após algum tempo, essas garotas tendem a perder o “brilho” diante dos olhos do estilista, que é quando Cyril trata de convidá-las a se retirar da casa, geralmente as presenteando com um bonito vestido no caminho. No entanto, com a chegada de Alma, muito para o desprazer de Reynolds, essa velha rotina se transforma em algo diferente.

Falar mais do que o básico sobre a trama é estragar grande parte da misteriosa magia que exala do longa de Paul Thomas Anderson. A atmosfera aqui construída é tão bela quanto é desconcertante. Logo de mãos dadas com as belas atuações, encontramos a direção e fotografia (feita pelo próprio diretor), que fazem até cenas onde um personagem come um omelete serem absurdamente interessantes. Porém, a verdadeira protagonista da hipnotizante ambientação do longa é a trilha sonora., composta pelo velho parceiro de Anderson, Johnny Greenwood, mais conhecido como guitarrista da banda Radiohead, mas também considerado um virtuoso compositor de trilhas, geralmente bastante melódicas e melancólicas, além de puramente lindas e altamente harmoniosas. A trilha de Trama Fantasma é praticamente um personagem à parte.

Trama Fantasma é imperdível e o trabalho coletivo de Anderson, Day-Lewis (junto a todo o elenco) e Johnny Greenwood é impecável. O estranho romance simbiótico entre duas pessoas de personalidades tão diferentes, a forte relação de confiança entre o estilista e a sua irmã, os hábitos e o estilo de vida do protagonista se confrontando com a tenacidade da sua musa, o clima preciso, metódico e até fantasmagórico que envelopa os personagens – esses aspectos se ligam como pontos de um tricô, perfeitamente equilibrados, compondo uma imagem maior, íntima e muito particular, que é simplesmente muito interessante para não ser admirada.

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