Crítica do Filme “The Post – A Guerra Secreta”

The Post – A Guerra Secreta já impressiona de cara apenas pelas pessoas envolvidas no projeto. O diretor, Steven Spielberg, e os protagonistas, Meryl Streep e Tom Hanks, dividem entre eles não só um imenso prestígio como um bom número de estatuetas do Oscar. As expectativas são naturalmente altas para estrelas desse porte, mas será que o longa se mantém relevante além dos grandes nomes ligados à produção?

The Post é um drama de época baseado em fatos reais, mais um projeto do gênero para a longa lista de Spielberg, que já dirigiu diversos (e aclamados) títulos de época, na maioria das vezes biográficos, como A Cor Púrpura (1985), Império do Sol (1987), A Lista de Schindler (1993), Amistad (1997), Prenda-me se for Capaz (2002), Munique (2005) e mais recentemente, Lincoln (2012).

A trama segue o esforço do jornal The Washington Post em revelar ao público a verdade sobre a guerra do Vietnã. Após o New York Times partir na frente com o furo jornalístico e logo em seguida ser processado pela suprema corte dos Estados Unidos, cabe ao Post, em posse de recém-adquiridas cópias dos Pentagon Papers (documento interno ultra-secreto e detalhado sobre Guerra do Vietnã), a tarefa de revelar de vazar as informações, sob o perigo de, junto ao Times, ser processado e ter a sua equipe encarcerada pelo governo norte-americano. O acontecimento, não só foi muito importante para a época, representando uma marcante vitória para a liberdade de imprensa e o acesso à verdade, como conversa bastante com os tempos atuais, inundados por notícias falsas e governantes avessos à imprensa (principalmente nos EUA).

Tom Hanks interpreta Ben Bradlee, editor chefe do jornal e quem comanda toda a operação para expor os documentos do governo. Hanks, como é de se esperar, surpreende no papel, é ótimo vê-lo dando ordens pelo escritório com um jeitão cativante e um sotaque bem específico, típicos de Boston. Bradlee é o clássico editor intenso e impulsivo que faz tudo por uma boa notícia e pela integridade do jornal, um claro contraste com a sua chefe, Katharine Graham (Meryl Streep), que é facilmente a personagem mais interessante da trama, grande parte pela fantástica interpretação de Streep.

Graham é a herdeira do Washington Post e, após o suicídio do marido, ela se se encontra na posição de chefe da companhia, algo inusitado para mulheres na época. Em meio aos conturbados planos para abrir o capital da empresa a diferentes investidores (para melhorar a imagem e a situação financeira do periódico) e enquanto é obrigada a se afirmar constantemente em um mundo de homens mesquinhos, Graham ainda precisa segurar a onda do recente posicionamento político do Post e as suas possíveis consequências. Streep retrata a tímida e insegura chefe do jornal com maestria e é maravilhoso assistí-la fazendo o que ela faz de melhor.

Ambos protagonistas conseguem, sem esforço, lembrar a todos nós o que significa atuar de verdade. Legitimamente representar outra pessoa e vender essa ideia – sem exageros e sem outra necessidade além de interpretar o que tem que ser interpretado. Hanks e Streep definitivamente trazem leveza e um alto grau de excelência à arte da atuação e isso está claro nesse filme, assim como em muitos outros.

A direção de Spielberg é competente, porém sem grandes surpresas, e o mesmo pode ser dito para toda a produção. The Post é um filme parado e que tenta trazer a “ação” através de diálogos rápidos em reuniões e discussões frequentes onde a tensão é constante. Não é fácil manter o público entretido dentro de escritórios, mesmo com a natureza frenética do jornalismo, e no final das contas, The Post é inegavelmente um filme bastante lento e e não muito cativante, independente do gênero. Este é um filme de “investigação” onde não existe nenhuma investigação e tudo é meio que entregue pronto para os personagens. A tensão existe e é crescente, mas quando chegamos ao fim, essa grande e relevante conquista para a liberdade de expressão quase parece fácil, e certeza que não foi nada fácil, só o longa que falhou em passar esse sentimento.

As performances de Hanks e Streep, unidas à importância da história sendo contada, vendem um filme, que talvez com outros nomes ligados ao projeto, não teria a mesma relevância. O longa é pouco memorável e ainda falta certa inspiração para ele realmente merecer alguns dos louvores que está recebendo. E embora assistir a dupla Hanks e Streep seja um deleite, o filme carece de uma cena definitiva onde os dois contracenem de verdade e mostrem todo o seu potencial simultaneamente.

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