Crítica do filme “O Touro Ferdinando”

Não é de hoje que as touradas, tradição espanhola, são um assunto polêmico. A prática de levar touros a grandes arenas e sacrificá-los diante de uma multidão, que assiste o espetáculo como se fosse uma partida de futebol, divide opiniões por justamente estar vinculada a, entre outras coisas, uma questão sociocultural. É justamente nesse terreno arenoso que pisa o filme O Touro Ferdinando, uma animação de apelo infantil.

Baseado no roteiro do livro Ferdinando, o Touro, de autoria do escritor norte-americano Munro Leaf, o longa conta a história de um touro fora dos padrões. Mas o diferencial de Ferdinando não está em seu porte, muito pelo contrário, o animal é uma materialização da imagem mental que temos dos representantes de sua espécie: grande e corpulento. Sua particularidade está no fato de não se conformar com o destino traçado para si, que é o de se tornar um lutador feroz, irascível e opulente.

De personalidade dócil e amante das flores, Ferdinando acaba escapando da “Casa del Toro”, rancho que prepara os touros para os combates na arena. Assim, ele acaba encontrando em uma casinha campestre, onde vive uma garotinha chamada Nina, um lugar amoroso e familiar, diferente do ambiente competitivo de onde fugiu. Mas para que a narrativa desperte o mínimo de interesse, essa tranquilidade será totalmente perturbada…

Apesar de filmes com animais humanizados não ser novidade, a proposta de O Touro Ferdinando traz um tema que não é tão convencional. E o tom da narrativa acerta ao não vilanizar os personagens que alimentam a estrutura das touradas, apesar de assumirem claramente o papel de antagonista. A intenção aqui não é interferir no dilema da nação espanhola. Nesse sentido, a questão é tocada de forma leve e edulcorara, palatável ao público mais jovem.

A premissa do longa é universal, diz respeito a questões de aceitação e respeito às diferenças. A grande metáfora do filme está no paradoxo que é um touro, do qual se espera uma natureza impetuosa, ser extremamente delicado. E não há problema nisso. É interessante a utilização das flores como um recurso narrativo que liga a atmosfera bucólica à sensibilidade do personagem título, ao longo de todo o filme, apesar de beirar o piegas em vários momentos.

Para ajudar a contar essa história da forma sensível, que é o que a narrativa requer, os elementos de design de produção foram cruciais. São cenários bucólicos e simples que conferem ao longa um clima caloroso e pacífico. A utilização do 3D também não soa forçada. Sua função foi realmente aproveitada e gera cenas esteticamente bonitas e funcionais, os melhores exemplos são as cenas do último ato, em que há uma luta decisiva (paremos por aqui para não evitar spoilers).

Um ponto positivo do filme é o ritmo mais desacelerado. Há uma preocupação em narrar uma história e não se perder em piadinhas descartáveis ou num frenesi de gags em que muitas outras animações infantis investem. Nem por isso o longa é entediante. Por outro lado, um problema a ser destacado é a falta de carisma dos personagens. Até mesmo a personagem Lupe, uma cabra que deveria funcionar como alívio cômico tal qual o Burro de Shrek ou a Dory de Procurando Nemo, não desperta tanto interesse individual.

O Touro Ferdinando é um filme divertido e emocionante, que trata do já conhecido tema sobre aceitação e respeito às diferenças. A vantagem aqui é embarcar numa viagem a alguns dos costumes espanhóis, numa reconstrução cuidadosa em animação gráfica de povoados pequenos à grande Madrid.

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