Crítica do Filme “O Rei do Show”

Musicais existem em uma dimensão paralela onde conflitos e resoluções são colocados em destaque através de números musicais espontâneos e por isso, naturalmente, não possuem muito compromisso com a realidade. Musicais são “espetaculosos”, trabalham diretamente com os sonhos e tendem a ser felizes. São um escape do dia-a-dia, da rotina e funcionam como um transporte direto para um mundo de fantasia. Hollywood, na sua juventude, produzia musicais em massa exatamente por essa razão: o cinema era um espetáculo e necessitava de números musicais. Aspecto herdado com facilidade dos espetáculos tradicionais que precederam a sétima arte como o teatro e, é claro, o circo. Seria uma conclusão apenas natural fazer um musical cinematográfico sobre o circo e assim chega aos cinemas O Rei do Show.

O Rei do Show é levemente baseado na história real de P.T. Barnum (Hugh Jackman), fundador do famoso circo itinerante dos EUA, Barnum & Bailey Circus, e desse jeito confunde a linha de o quão real deve ser um musical. Esse não é um filme biográfico, O Rei do Show apenas empresta elementos da vida de Barnum para contar uma história grandiosa durante os vários atos musicais. Em meio a tanto espetáculo, o filme é tão simples quanto a mensagem que almeja passar: acredite nos seus sonhos e não esqueça das suas raízes.

A trama basicamente acompanha Barnum em sua jornada para construir o seu famoso circo, de uma infância bastante simples como um filho de um alfaiate até o inesperado sucesso de um circo protagonizado por um grupo de pessoas “exóticas”. Todos os arquétipos circenses estão presentes: a mulher barbada, o anão, o homem forte, trapezistas e vários outros do tipo. Inconformado por fazer sucesso apenas com o público geral e não ser respeitado pela alta sociedade, Barnum põe tudo em risco e eventualmente tem que perceber o que realmente vale a pena.

O longa tecnicamente está em produção desde 2009 já com Jackman no projeto, ator conhecido no circuito de musicais tendo atuado na Broadway e levado um prêmio Tony para casa, além de ter estrelado Os Miseráveis (2012), e só em 2016 escalaram outro ator cativo do cenário musical, Zac Efron (que conquistou a fama com High School Musical) para interpretar o sócio de Barnum, Phillip Carlyle. Talvez o longo tempo de produção seja o responsável pelo confuso produto final. Com músicas compostas pela dupla ganhadora do Oscar, Pasek and Paul, responsáveis pelo fenomenal La La Land no começo do ano, e com um elenco bastante talentoso e carismático, incluindo Michelle Williams (atriz multipremiada que também já atuou na Broadway) e Zendaya (oriunda do Disney Channel, assim como Efron), O Rei do Show tinha tudo para ser o espetáculo fabuloso que gostaria de ser, no entanto sempre aparenta faltar “algo”.

O filme certamente tem estilo, mas poderia ter muito mais para um musical com uma roupagem de circo. Até os números mais ousados ainda parecem meio seguros e não tão extravagantes quanto poderiam ser. O longa se passa no século XIX e todas as músicas são absurdamente pop e um tanto genéricas, o que poderia até ser uma contradição interessante, porém não funciona perante à qualidade das canções. As músicas lembram artistas como Katy Perry, Sia ou Ed Sheeran, mas com definitivamente menos “alma”. Esqueça os temas refinados e bem produzidos de La La Landnenhuma música de O Rei do Show é realmente memorável e isso é uma pena.

Acredito que todos os atores fazem um trabalho decente com o material que lhes foi entregue, entretanto aquela sensação de “vazio” também persegue as atuações, com exceção de Zendaya, que possui o único arco com uma certa humanidade palpável e entrega muito bem a sua performance. No entanto, a escalação da atriz, a de Zac Efron, e o exagero pop das composições, confundem bastante qual é público-alvo desse filme, que absolutamente não se sustenta como um bom musical “adulto”. A sensação que resta é que a história de P.T. Barnum poderia ser muito melhor aproveitada em vez de ser levemente usada como pano de fundo para um musical praticamente teen, com uma trama bastante genérica e canções que não levam nem cinco minutos para serem esquecidas.

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