Crítica do Filme “O Insulto”

O Líbano envia filmes para serem considerados ao Oscar de melhor filme estrangeiro desde 1976, e finalmente, agora em 2018, O Insulto rendeu a tão esperada (e merecida) indicação para o país do oriente médio. O responsável por esse feito é o diretor e roteirista Ziad Doueiri, que começou a sua carreira como assistente de câmera de Quentin Tarantino e trabalhou em alguns clássicos do diretor estadunidense, como Cães de Aluguel (1992) e Pulp Fiction (1994). Doueiri dividiu o seu tempo entre Los Angeles e Beirut por vários anos, além de dirigir algumas produções francesas para o cinema e a televisão, mas antes de O Insulto, o diretor era mais conhecido por West Beyrouth, o seu primeiro longa-metragem produzido no seu país de origem, e que também foi considerado para a indicação ao Oscar em 1999.

Quase 10 anos depois, Doueiri conquista a chance de uma estatueta com um poderoso e emocional filme, que informa sobre o grande conflito no oriente médio, enquanto trata de um “pequeno” conflito entre duas pessoas. Onde somente um insulto é o estopim para uma revolta nacional e até ameaças de uma possível guerra interna.

Um imigrante palestino, Yasser, conserta um cano defeituoso que está vazando para a calçada, sem a permissão do dono da casa, Toni, um cristão libanês um tanto instável. Toni, em um momento de fúria, destrói o cano assim que ele é arrumado, e Yasser, frustrado, profere xingamentos indignados.

Toni faz questão de receber um pedido de desculpas pessoalmente e o palestino, sendo obrigado pelo seu chefe, encontra o cristão com a intenção de se redimir, mas se depara com Toni escutando um velho discurso anti-palestina na televisão, o que torna o ambiente ainda mais hostil. O libanês então, irritado e nervoso, diz a Yasser, uma pesada frase que se repete ao longo de toda a trama, “Quisera eu que Ariel Sharon (ex-primeiro-ministro de Israel) tivesse exterminado todos vocês.” Yasser imediatamente desfere um soco na barriga de Toni e acaba por quebrar duas de suas costelas.

Após esse evento, aos poucos a trama, que inicialmente pertence a uma esfera bastante pessoal, vai se desdobrando de uma forma “global” e parece já não depender mais da vontade dos dois envolvidos. Logo, Toni leva a situação aos tribunais e o que começou como apenas um insulto (verbal e físico) se transforma em um importante episódio para a Questão Palestina, já que Yasser, um simples e humilde imigrante, é o acusado. Se iniciam uma série de protestos, a mídia cobre o julgamento de forma minuciosa e eventualmente até o presidente do Líbano se encontra na posição de mediar o ocorrido.

O Insulto funciona um pouco como uma lição de história, porém essa não é a intenção principal. O filme é um forte drama familiar, que então se transforma mais em um drama de tribunal e, de brinde, ensina um bom bocado sobre o oriente médio, de uma forma pessoal e nem um pouco maçante. O longa, muito pelo constante aumento de tensão da história, se mantém sempre interessante e definitivamente prende o espectador. O roteiro é excelente, recheado de boas frases e diálogos muito bem entregues, um mérito do ótimo elenco. As atuações podem ser quase exageradas em alguns momentos, principalmente a de Adel Karam (Toni), mas elas se mantém no “quase” e no fim, funcionam.

A direção cumpre o objetivo de contar uma história que é um conflito entre duas pessoas, onde ambos demonstram bastante orgulho e emoção, e passar esse sentimento de forte proximidade à situação. A própria câmera parece estar inserida logo ali, no meio da ação, muitas vezes “tremida” e caracterizada por muitos closes. Mesmo quando a narrativa se afasta um pouco de Toni e Yasser, com o fim de contemplar uma maior amostra, a proximidade ainda é preservada. E esse é o maior mérito de O Insulto, tratar com tanta familiaridade de um tema tão sensível e “grandioso”.

Toni e Yasser estão machucados, feridos por diferentes acontecimentos nas suas vidas, e todo o conflito da trama se constrói em cima da dor, e da honra, de cada um. Não é difícil se sentir extremamente próximo desses personagens e o jeito que o filme apresenta e explora as suas diferenças, e principalmente, as semelhanças, é lindo. O Insulto nos ajuda a lembrar que os conflitos, de todos os tamanhos, envolvem seres humanos, e assim são intrinsecamente fadados às sutilezas e subjetividades da vida.

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