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Crítica do Filme “O Formidável”

Jean-Luc Godard revolucionou o cinema, mas O Formidável mostra que talvez essa não era bem a revolução que ele queria. O longa, dirigido pelo diretor Michael Hazanavicius (do multipremiado O Artista), acompanha Godard (interpretado por Louis Garrel de Os Sonhadores) durante um momento de transição na sua carreira e na sua vida pessoal. Desde quando ele estava acabando de filmar A Chinesa em 1967, até maio de 1968, durante a famosa greve geral da França, conhecida como um dos acontecimentos revolucionários mais importantes do século XX.

Godard foi um dos principais nomes do movimento francês Nouvelle vague, movimento vanguardista e contestatório dos anos 60 marcado pela pouca verba e a juventude dos seus autores. Seus filmes mais famosos da época são Acossado (1960) e Desprezo (1963) e assim como muitas de suas obras nos anos seguintes, são considerados marcos do cinema. Durante as filmagens de A Chinesa, filme que marca uma mudança drástica nos métodos de produção do diretor, Godard se envolve e se casa com a atriz principal, Anne Wiazemsky, que anos depois veio a escrever um livro sobre a sua relação com ele. O Formidável é baseado neste livro e, na maioria das vezes, narrado pela visão de Anne (Stacy Martin), embora Jean-Luc também tome o controle de algumas cenas.

E Le Redutable (no original) brinca com a sua própria estrutura diversas vezes, típico do cinema europeu/francês, mas imagino que também como uma homenagem aos próprios filmes de Godard. A fotografia brinca com os detalhes ao longo de todo o filme e em muitos momentos sincroniza perfeitamente com a trilha sonora. Planos-sequência, closes e stills alternam entre si para melhor acomodar a cena. Pequenas regras também são quebradas quando a emoção permite – desde a imagem ficar em negativo de repente, a legenda ser tomada pelos pensamentos dos personagens ou até momentos “meta” irônicos onde os personagens comentam a estupidez de algo que eles mesmo estão fazendo. Julgando apenas pela “forma”, O Formidável consegue proporcionar uma experiência bastante agradável, no entanto o filme possui outras camadas.

A temática é bastante profunda para um filme que se considera uma comédia – mas encare como uma comédia de situações, não algo para morrer de gargalhar. À partir de A Chinesa, que fora fortemente influenciado pelas ideias revolucionárias maoístas, e inspirado pelo próprio cenário político da época – movimentos estudantis na França, guerra do Vietnã – Godard renega o seu passado como diretor “burguês” e mergulha em uma longa fase de experimentos com “filmes políticos”.

A caricatura de Godard, durante essa época, que O Formidável pinta é fascinante. A “graça” do filme está em acompanhar os constantes movimentos frustrados do inquieto diretor. O mundo está em constante desacordo com ele, e ele cada vez mais longe do mundo. Ele reclama que está sozinho, mas rejeita o mundo inteiro. Logo no começo do filme, Godard cita que Mozart morreu com 35 anos, todo o artista deveria morrer com 35 anos, e ele no momento tinha 37. Ele então casa com uma garota de 19 anos e trata de sugar sua juventude. Jean-Luc é frustrado pela juventude que já não o pertence mais e pela sensação de “oprimido” que nunca o pertenceu. Ele está sempre na defensiva e ataca repetidas vezes todos os que discordam dele e tudo o que pode ser considerado “frívolo” e “burguês”, incluindo tudo o que ele era e tudo o que já havia realizado. Godard quer destruir o cinema e a si mesmo junto. Ele não quer viver. Cada vez mais ele se transforma em uma pessoa insuportável e o processo é agoniante, porém tragicômico. Ele é uma caricatura dele mesmo e é interessante ver onde ele vai chegar.

Anne quer continuar casada com o mesmo Godard pelo qual ela se apaixonou: o gênio do cinema, “burguês” e “frívolo”. O Jean-Luc seguro e empolgado com o mundo, e não o que ele se tornou. O conflito entre os personagens se sustenta no fato de que, embora Anne possua a juventude que ele tanto inveja, o que ela admira em Godard é justamente a sua “velhice”, isto é, os seus feitos e a sua experiência. Tudo o que ele agora odeia e rejeita nele mesmo.

O filme é conduzido pelo casal principal, e a química entre os atores é ótima e proporciona as melhores cenas do longa. Garrel, especialmente, está brilhante como o hiper-neurótico diretor, e a sua atitude protagoniza todos os momentos engraçados do filme. Porém é importante lembrar que a magia não funcionaria sem Stacy Martin no papel do straight man (clássico arquétipo da comédia que conta com alguém exagerado e alguém sério para servir como um medidor do exagero), sempre com sutis sorrisinhos e olhadelas para as pessoas em volta dos ataques de “excentricidade” de Godard.

“E assim segue a vida à bordo do Formidável” é repetido algumas vezes durante o filme, citando um famoso submarino da época, o desenrolar da vida dos personagens e o próprio Godard, que declara em certo momento: “estou sozinho por que vejo coisas que vocês não veem e compreendo coisas que vocês não compreendem.” No ápice do egocentrismo ele poderia muito bem ser um submarino, no fundo do mar, com uma visão limitada do mundo e longe de tudo e todos.

Vale a pena acompanhar e tentar entender a crise existencial de Jean-Luc Godard – assim como a reação de Anne Wiazemsky –  em O Formidável.

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