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Crítica do Filme “Liga da Justiça”

Desde o estrondoso lançamento de Vingadores em 2012, fãs de quadrinhos e entusiastas do emergente “gênero” de filmes de super-herói imaginavam como seria uma reunião dos icônicos heróis da DC na telona. Entretanto, enquanto a Marvel trilhou brilhantemente o caminho para o primeiro longa do seu supergrupo, preparando o terreno desde Homem de Ferro (2008) e aos poucos mostrando para a audiência quem são aqueles personagens e por que devemos nos importar com eles, a rival DC, que demorou anos para perceber que estava perdendo dinheiro por não possuir o seu próprio universo cinematográfico, decidiu por empurrar uma enxurrada de heróis e informações em poucos filmes, tentando “alcançar” a Marvel de alguma forma.

Assim, em 2013 a Warner Bros (dona da DC) lança Homem de Aço e dá o pontapé inicial para a criação do seu próprio universo cinematográfico. A DC havia gozado de um expressivo sucesso de crítica com a recente trilogia baseada em uma de suas franquias: a trilogia do Batman do aclamado diretor Cristopher Nolan. Lembrando que O Cavaleiro das Trevas (segundo longa da trilogia, de 2008) até hoje é o segundo filme de super-herói com maior sucesso de bilheteria da história, perdendo apenas para Os Vingadores. O tom mais “sombrio” e sério da trilogia de Nolan garantiu certa distância temática entre os filmes da DC e os filmes mais leves e family-friendly da Marvel (que pertence à Disney) na mente dos espectadores. Essa suposta responsabilidade de carregar a bandeira do filme de herói de “adulto” da DC, enquanto a Disney fazia rios de dinheiro com a sua fórmula cinematográfica leve e acessível, acaba sendo o maior problema do posicionamento da Warner até os dias de hoje.

Zack Snyder, diretor de filmes como 300 (2006) e Watchmen (2009), foi o escolhido para desenhar o plano cinematográfico dessa nova fase da DC no cinema e ele não é Cristopher Nolan. Snyder construiu a sua carreira em cima de adaptações de quadrinho, o que fica claro no seu estilo de direção voltado para o apelo visual, com cenas de ação dinâmicas e estilizadas dignas de uma HQ. Snyder é um diretor contratado para entregar uma experiência X e nada mais, um diretor que trabalha com o espetáculo visual. Já Nolan é um cineasta. Nolan é um roteirista e diretor excepcional, conhecido por surpreender em suas obras e entregar experiências novas e não-lineares. Nolan aparentemente até colocou um dedo na história de Homem de Aço (e recebe crédito na história), mas o projeto, e toda a concepção do universo da DC, é de Snyder. O último filme do Superman é até interessante no ponto de vista da trama e a ideia por trás, porém é um filme de apelo visual mascarado com conteúdo e não um filme com conteúdo. O universo da DC no cinema, tematicamente, parte desse princípio: o Superman existe, aliens e meta-humanos existem, e agora? A premissa seria ótima se pelo menos fosse bem executada.

Em 2016 a Warner provou que, definitivamente, não sabia qual direção seguir com o seu novo universo cinematográfico e lançou dois filmes extremamente medíocres: Esquadrão Suicida e Batman vs. Superman: A Origem da Justiça. Esquadrão Suicida não parece ser diretamente relevante para o universo sendo construído e foi claramente uma resposta para o inesperado sucesso de Guardiões da Galáxia –  ambos os filmes sobre um supergrupo desconhecido pelo público geral e recheados de referências pop, só que um foi bem feito e inesperado e o outro lançado com pressa de ser relevante. E Batman vs. Superman se mostrou o epítome dessa pressa em apresentar um mundo de heróis e ser relevante: colocando os dois heróis no mesmo filme o mais rápido possível, além da participação de outros, como a Mulher Maravilha. O resultado foi um filme extremamente confuso e mal acabado que não sabia o seu próprio objetivo. Aproximadamente três horas de uma trama fraca, com atuações fracas e motivações nulas. Assim como Homem de Aço, mas ainda pior – um filme de apelo visual, mascarado com conteúdo, mas sem conteúdo, onde eventos acontecem porque eles acontecem e ponto. O filme é lotado de questões político-filosóficas que só servem para “encher linguiça” e para fantasiar o filme de “sério”, por que elas nunca são exploradas de uma forma eficiente.

Resumindo, o universo cinematográfico da DC é bastante confuso e até pretensioso na sua temática e, ao contrário da Marvel, que parece ter sempre os próximos dez passos perfeitamente planejados, a DC nos últimos anos só corre para consertar os seus erros. Os filmes da Marvel não são perfeitos, na verdade é fácil dizer que já parecem muito repetitivos e previsíveis, mas eles são consistentes. Falta consistência na DC e a culpa é por nunca acharem um equilíbrio entre “copiar” as boas escolhas da adversária e manter a postura “séria” dos filmes de Nolan. Com Liga da Justiça parece claro que eles estão finalmente escolhendo um caminho.

Liga da Justiça não vai mudar a vida de ninguém, no entanto é infinitamente mais agradável que Batman vs. Superman. Justamente por que a Warner parece ter percebido o que funciona – copiar as boas escolhas da Marvel. Liga da Justiça se livra das toneladas do peso ideológico do seu antecessor (BvsS) e abre espaço para uma simples história de um grupo de super-heróis que luta contra uma ameaça alienígena, muito como Vingadores fez em 2012.  As implicações da existência do Superman no mundo “real” e as várias referências religiosas e comparações bíblicas já não parecem tão importantes aqui e, na verdade, não tem quase nenhum espaço.

O time de super-heróis conta com Batman (Ben Affleck), Mulher Maravilha (Gal Gadot), Aquaman (Jason Momoa), Flash (Ezra Miller), Ciborgue (Ray Fisher) e, embora o personagem tenha morrido no final do filme anterior, não é difícil de descobrir que Superman (Henry Cavill) aparece e, inclusive, o clímax da sua aparição no longa talvez seja a melhor cena do herói nessa nova onda de filmes da DC. A morte do superman aparentemente deixa a terra à mercê de novas ameaças externas e um ser milenar, conhecido como Lobo da Estepe (Ciáran Hinds), convenientemente ligado a origem dos atlantes (Aquaman), das amazonas (Mulher Maravilha) e dos homens, aparece para retomar três cubos energéticos que ficaram aos cuidados de cada um dos povos. Em frente à nova ameaça, Batman e Mulher Maravilha tratam de recrutar os meta-humanos citados no filme anterior para lutar ao seu lado.

Muito pode ser falado sobre a interação dos atores como uma equipe e creio que funciona em geral, mas algumas das performances não são das melhores. Ezra Miller rouba o filme como o alívio cômico designado, interpretando exatamente o papel de Peter Parker (Tom Holland) em Capitão América: Guerra Civil (2016) da Marvel – o novato deslumbrado pelo mundo dos heróis que solta piadinhas a todo segundo. Ben Affleck simplesmente não foi uma boa escolha para viver o homem-morcego e parece que até mesmo o ator sabe disso. Quando ele e Gal Gadot contracenam, o filme é facilmente confundido com uma novela. Affleck não está confortável no papel, Gadot, embora carismática e fantástica nas cenas de ação, não convence na hora de interpretar de fato, e o texto em geral é bem fraco. O Aquaman de Momoa é basicamente o Thor de Chris Hemsworth – o personagem sério e deslocado, que quando foge da sua zona de conforto resulta em uma piada fácil. Henry Cavill não é necessariamente um grande ator, mas continua funcionando bem como Superman e o Ciborgue de Ray Fisher é um dos pontos altos do filme, com boas falas, boa motivação e a interação dele com Miller rende bons momentos durante a história.

Em geral o roteiro é fraco, a trama é apressada e previsível. Muitas das piadas não funcionam muito bem (e são muitas). Visualmente é só mais um filme de Zack Snyder, não espere nada de novo. As cenas de ação não surpreendem e abusam do slow motion, principalmente em (todas) as cenas do Flash. Positivamente, a fotografia é competente em vários momentos e a trilha sonora é bem melhor que a de Batman vs. Superman. A DC parece ter começado a acertar a mão, olhando com mais cuidado para os elementos que funcionam em outros filmes de herói, mas ainda precisa lutar para achar a sua identidade. Uma das melhores cenas do filme é a inicial, ainda antes dos créditos, onde – na mesma pegada estética da cena inicial de Homem Aranha: De Volta ao Lar (2017) – Superman aparece filmado por uma tela de celular, sendo entrevistado por crianças. Em meio a uma série de perguntas triviais, uma pergunta chave: qual é a melhor coisa da terra? Superman sorri e olha para cima em uma cena simples, mas estranhamente poderosa e sensível. Sinto que toda a questão da humanidade do herói, que tentaram explorar incessantemente em filmes anteriores, nunca foi apresentada tão bem quanto nessa cena tão simples. Liga da Justiça começa com esperança e isso é bom.

Liga da Justiça não é um filme excepcional, mas é o filme que a Warner sempre quis fazer com os heróis da DC e tem o potencial de ser um passo certo em direção a um universo consistente. Como um típico filme da Marvel, traz diversão para a família inteira sem muita pretensão.

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