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Crítica do Filme “Kingsman: O Círculo Dourado”

Em 2015, Kingsman: Serviço Secreto (2014) surgiu de repente e surpreendeu positivamente a maior parte dos espectadores com sua interpretação altamente exagerada, satírica e por vezes até meio “pastelona” de filmes de agente secreto, principalmente a famosa franquia do agente 007. Algo que talvez a série de filmes de Austin Powers já tivesse feito antes (brincando muito, inclusive, com todo conceito do agente secreto britânico), mas o primeiro Kingsman soube equilibrar muito bem o humor escrachado com belíssimas cenas de ação. É um filme um tanto estranho e que carrega consigo um carisma muito próprio, e por isso acredito que mereceu o inesperado sucesso. A primeira coisa que se precisa entender sobre Kingsman é que o filme é absolutamente lotado de clichês, referências, exageros e parece sempre saber disso. No entanto é uma paródia que simultaneamente consegue, em diversos momentos, se levar a sério como um filme de ação.

De cara nota-se que Kingsman tem uma “pegada” típica de filmes de super-herói, e de fato, esse é o caso. O diretor é Matthew Vaughn, conhecido por adaptações de quadrinhos como Stardust (2007) e X-Men: Primeira Classe (2011), e o toque de Vaughn com certeza se mostra presente. As sequências de ação e o ritmo geral de Kingsman lembram bastante Kick-Ass (2010), outro filme bastante divertido do diretor baseado em uma HQ pouco conhecida, assim como a franquia Kingsman.

Então dois anos depois, Kingsman: O Círculo Dourado finalmente chega às telas de cinema, algo que os fãs do primeiro filme aguardavam ansiosamente. E o que se podia esperar da sequência? No mínimo as sequências de ação absurdas e o humor inundado de clichês, tão típicos dos filmes de agente secreto que o primeiro filme estabeleceu. Não se pode dizer que a sequência não cumpra esses requisitos, mas parece que no meio do caminho os produtores se esqueceram do porquê do primeiro filme ter funcionado tão bem em 2015.  Como visto no final do primeiro filme, Eggsy (interpretado pelo semi-desconhecido Taron Egerton) salva o mundo do plano megalomaníaco do vilão Richmond Valentine (interpretado por Samuel L. Jackson em um papel um tanto diferente para o ator) que pretendia diminuir a população mundial fazendo com que pessoas ao redor do mundo tentem matar umas as outras através de uma transmissão via satélite. Acompanhamos toda a longa jornada de Eggsy de um garoto simples de Londres para um super agente secreto Kingsman e descobrimos esse mundo junto com ele.

Durante maior parte do primeiro filme Eggsy está tentando se tornar um Kingsman, passando por um árduo treinamento com riscos possivelmente mortais no caminho. Muito do que funcionava e contribuía com esse charme esquisito de Kingsman: Serviço Secreto era relacionado a história de underdog do protagonista e a atuação excelente de Colin Firth como seu mentor, o Agente Galahad (que infelizmente morre logo após uma das melhores cenas do filme). Logo nos dez primeiros minutos do segundo filme, muito do que poderia ser esperado para essa sequência é eliminado completamente. O que pode até ser considerado um gesto ousado e inesperado, porém parece mais certa preguiça em manter uma consistência. É quase como se o universo do filme fosse reiniciado. Tirando o fato que a sequência constantemente (ênfase no constante) referencia o filme original a um ponto que chega a ser quase ridículo, repetindo diálogos e até cenas inteiras, nem ao menos é necessário ter assistido o primeiro filme para o entendimento da trama de Kingsman: O Círculo Dourado. Muitos desses problemas podem tentar ser relevados com o argumento de que a própria franquia Kingsman não necessariamente joga pelas regras e sempre tenta chocar os espectadores com elementos e plot devices um tanto “aleatórios”, mas no final das contas o sentimento é de um roteiro cansado mesmo.

Eggsy, agora portando o codinome “Galahad”, que pertencia ao seu mentor Harry, é o único agente restante dos Kingsman em frente a uma conspiração de nível global, muito similar à trama do primeiro filme. Dessa vez Julianne Moore interpreta a vilã, Poppy, dona do maior cartel de drogas do mundo, mas que gostaria de ser reconhecida por seu dom como mulher de negócios, o que não possível diante do fato que ela é basicamente uma traficante de drogas. Julianne é uma boa atriz e é até por vezes mais interessante como vilã do que Samuel L. Jackson, mas as várias cenas de exposição da sua personagem acabam por não compensar. O conflito do primeiro filme era simplesmente mais consistente e interessante.

A trama muitas vezes parece que não sabe para onde ir. Um problema de roteiro que também afeta maioria do elenco recheado de estrelas de Kingsman: O Círculo Dourado. Eggsy precisa ir aos Estados Unidos para pedir ajuda da “franquia” americana dos Kingsman: os Statesman. Uma ideia interessante no papel, mas que definitivamente não foi bem executada no filme. Na verdade só acrescentou ainda mais elementos a uma trama já confusa. O charme e fleuma britânicos típicos dos Kingsman, se perderam para aquela caracterização genêrica do cowboy americano nos Statesman. Além do mais, vários grandes nomes de Hollywood tiveram a oportunidade de não fazer quase nada dentro dos Statesman. Jeff Bridges talvez tenha duas cenas durante toda a trama; Halle Berry é que mais rouba a tela, mas infelizmente apenas para sentar em uma cadeira e Channing Tatum que protagoniza grande parte do marketing do novo filme, desaparece depois de uma rápida cena logo no início.

Alguns dos aspectos mais marcantes do primeiro filme não souberam se reinventar para essa sequência. O segundo Kingsman trabalha principalmente com o que parece ser nostalgia do filme original e coisas muito positivas do primeiro filme se tornaram chatas ou sem sal em O Círculo Dourado, como a trilha sonora e a mixagem de som. Kingsman: Serviço Secreto soube magistralmente escapar do estigma de filme paródia de comédia escrachada pela sua irreverência, identidade e por cenas de filmes de ação que se encaixariam em qualquer filme “sério” do gênero. No entanto a sequência deixou a desejar na maioria dos aspectos e aparece como uma cópia apressada do seu irmão mais velho. Embora possua algumas cenas de ação muito bem orquestradas, o segundo lançamento da franquia parece só mais uma comédia.

Kingsman: O Círculo Dourado não é um filme para grandes expectativas e se for visto dessa forma, pode com certeza ser divertido em alguns momentos.

 

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