Crítica do Filme “Jogador Nº 1”

Jogador Nº 1 é uma daquelas grandes e empolgantes aventuras que chegam a emocionar dentro do cinema, lembrando bastante o sentimento dos clássicos oitentistas de Steven Spielberg durante o seu auge, como E.T. – O Extraterrestre (1982) os filmes de Indiana Jones (1981-1989) ou até a clássica franquia De Volta Para o Futuro (1985-1990), que Spielberg atua como produtor executivo. O filme não apenas se assemelha tematicamente a esses clássicos, como também referencia os seus elementos constantemente, incluindo aspectos de toda a cultura pop dos últimos 40 anos, mas com um claro foco na década de 80.

Baseado no livro homônimo escrito por Ernest Cline, Jogador Nº 1 é uma aventura de ficção científica ambientada em um futuro distópico onde a poluição, o aquecimento global e a superpopulação deixaram as grandes cidades em um deprimente estado de ruína, fazendo com que as pessoas passem a maior parte do seu tempo dentro do famoso jogo de realidade virtual conhecido como Oásis. O recluso e visionário criador do jogo, James Halliday (Mark Rylance), incorporando uma verdadeira mistura entre Steve Jobs e Willy Wonka, lança, após a sua morte, um desafio a todos os jogadores – encontrar o easter egg, um segredo guardado por três chaves, dentro do Oásis e assim herdar as suas ações da empresa, meio trilhão de dólares e adquirir total controle do mundo do jogo.

O protagonista, Wade Watts (Tye Sheridan) é um jovem gunter (egg hunter – caçador de ovos) que mora nas favelas da cidade de Columbus junto com a sua tia. Encarnando o seu avatar Parzival, Wade está, junto a vários outros jogadores, há 5 anos em busca das chaves de Halliday dentro do Oásis. Entretanto, não são só os gunters independentes que estão atrás do segredo, uma megacorporação conhecida como IOI, responsável pela fabricação de maioria dos equipamentos utilizados para acessar o Oásis, possui o seu próprio exército (os sixers), uma grande quantidade de recursos, e está determinada em almejar o controle do jogo de qualquer maneira, inclusive pelo mundo real.

Eventualmente, o primeiro desafio é descoberto e relevado a todos os jogadores: uma corrida frenética que envolve um feroz Tiranossauro Rex e o infame gorila gigante, King Kong. Ninguém nunca conseguiu completar a corrida e Parzival, e o seu melhor amigo, o mecânico virtual, Aech, passam por várias tentativas frustradas de vencer e adquirir a primeira chave. No entanto, não é até eles conhecerem a vlogger e streamer, Art3mis (Olivia Cooke), que a dupla enfim consegue avançar no placar. O “clã” informal formado por Parzival, Aech, Art3mis e os irmãos japoneses Daito e Sho, fica conhecido ao redor do Oásis como The High Five, os primeiros no placar geral e os jogadores mais próximos de alcançar o cobiçado easter egg, colocando-os, principalmente Wade, diretamente na mira da IOI, e deixando nas mãos do grupo a responsabilidade de proteger o futuro desse mundo virtual tão importante para todos.

O mundo do Oásis é rico em detalhes, cheio de referências e composto por efeitos especiais incríveis – o contraste entre a Columbus insossa e pouco explorada, e a realidade mágica e colorida do Oásis é gritante. Não é nada difícil entender o porquê das pessoas passarem tanto tempo dentro dessa simulação. As possibilidades são quase infinitas: inúmeros estilos de jogos, tipos de avatares e localizações diferentes que são apresentadas com maestria dentro do longa. A construção e a representação do mundo, unidos às vastas referências à cultura pop, já seriam o bastante para entreter e justificar a existência do filme por si só, mas Jogador Nº 1 também conquista o seu espaço como um filme de ação e aventura bastante competente.

Vale a pena frisar que além dos diversos momentos de ação delirantes (de intensas corridas a grandes guerras), não é só de caos que vive o Oásis, e também podemos presenciar alguns belos momentos de respiro durante o frenesi da narrativa. Uma das cenas mais bonitas da trama, por exemplo, é quando dentro de uma boate virtual, o casal principal se une às pessoas que dançam pelo ar e, livres das amarras da gravidade, iniciam uma dança voadora visualmente espetacular e cheia de tensão entre os dois. No final da sequência, a história é jogada diretamente de volta à ação, mas o momento de calma em meio à tempestade funciona e é muito bem-vindo.

A enxurrada de cameos causa surpresas constantes: o longa conta com aparições de personagens como Mechagodzilla, RX-78-2 Gundam (o robô principal do clássico animê Mobile Suit Gundam), Chucky (Brinquedo Assassino, de 1988), Tracer (de OverWatch), Master Chief (da série Halo), o Gigante de Ferro (direto da animação homônima de 1999), Spawn (dos quadrinhos) e até do Batman. Mesmo que alguns desses personagens só apareçam de relance, a enxurrada de elementos nostálgicos nunca acaba. Durante o desafio da corrida, por exemplo, Parzival dirige um Delorean (carro icônico de De Volta Para o Futuro) e Art3mis dirige a clássica moto de Kaneda (da animação Akira, de 1988). A nostalgia também está fortemente presente na agradável trilha sonora, recheada de clássicos oitentistas, que vai (literalmente) de Van Halen a Hall & Oates. O filme é um prato cheio de saudades para quem cresceu nos anos 80/90.

Jogador Nº 1 tem uma duração bastante longa (2h20) e ainda assim existe muito a ser explicado e algumas coisas acabam se perdendo: o mundo real quase não é explorado, os personagens possuem arcos fracos e quase nenhuma história de origem, e grande parte da trama é apresentada através de exposição em forma de narração. Só que o filme é divertido do começo ao fim, legitimamente engraçado em vários momentos e conta com um elenco de atores extremamente carismáticos e que se encaixam perfeitamente nos seus respectivos papéis. Diversão é a palavra-chave de Jogador Nº 1. A produção como um todo definitivamente consegue superar os seus poucos pontos fracos e é ótimo reencontrar o velho Steven Spielberg fazendo o que ele faz de melhor.

Recomendamos:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.