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Crítica do filme “Homem Aranha: De volta ao lar”

Homem-Aranha: De Volta ao Lar é um novo filme que se aproveita do sucesso do universo expandido da Marvel para atingir o seu público. A diferença deste é isso ser feito de maneira eficaz, resultando em uma proposta diferente das anteriores ligadas ao universo dos Vingadores. Quando anunciado o novo filme do herói, que já havia ganhado uma nova versão recentemente, o estranhamento foi inevitável. Como contar novamente a história do jovem que, ainda na puberdade, é picado por uma aranha, ganha super poderes, e precisa conciliá-los com problemas mundanos e uma tragédia familiar? E, para que contar novamente tal história em tão pouco tempo passado desde a última versão do personagem?  

Porém, um dos maiores méritos do filme ocorre justamente aí: conseguir criar, apresentar e desenvolver novamente as personagens e a história, de forma original e eficiente. As mudanças no enredo foram evidentes: tia May se mostra muito mais jovem e atraente (motivo de brincadeiras entre os personagens); o rival de Peter, Flash, agora foge de seu tradicional estereótipo e se apresenta no personagem de Manuel, um nerd latino, interpretado por Tony Devolory; não ruiva, muito menos loira, Mary Jane é adaptada para Liz Allen, vivida pela atriz negra Laura Harrier; e, claro, Peter Parker agora é de fato um adolescente de 15 anos, com atitudes e motivações correspondentes à sua idade.

A originalidade do filme se engrandece também na maneira como o roteiro é proposto e executado. No lugar de recontar as origens de Peter, a tragédia com seu tio, o momento em que é picado, dentre outros eventos intrínsecos e já conhecidos do personagem, o longa se inicia com tudo isso já superado. Dessa forma, o filme economiza no mínimo, metade de sua duração para desenvolver algo novo, sem velhas apresentações ou rodeios. Esse investimento ocorre então na inserção do herói no mundo dos Vingadores, por meio de um estágio que Peter faz na bilionária Indústria Stark, tendo como mentor o próprio Tony Stark.

Unir o universo do herói ao expandido da Marvel pode soar inicialmente como apenas mais uma maneira de massificar o filme e atingir maior público, ainda mais quando o segundo principal herói na obra é o Homem de Ferro. Porém, independente da produção ter visado esse lado ou não, ele com certeza foi bem sucedido e justificado na trama. A presença de Tony Stark não é grande nas mais de duas horas de filme, bem como as outras aparições e referências ao universo, colocadas em segundo plano. Tal escolha é mérito do jovem diretor Jon Watts, já que ao não forçar maior importância do universo expandido à obra, a usa apenas como meio condutor, em uma segunda camada, sempre com um fim mais cômico. E o resultado é, no mínimo, o filme mais divertido e do herói.

Carregando referências dos filmes anteriores, o longa discursa que sabe da relevância que estes tiveram, mas que agora é a sua vez de desenvolver o herói, do seu jeito. Aqui, Peter Parker age quase como uma criança, tanto nas horas mais descontraídas do filme, quanto nos momentos de maior construção dramática (que são raros, mas existem). As aparições de Tony Stark, e até mesmo do Capitão América, geram ações e diálogos cômicos, dignos de levar toda a sala de cinema à longas e sinceras risadas. Nesse quesito, a aparição dos outros heróis se justifica e não satura a obra como, por vezes, pode ter ocorrido nos filmes anteriores do universo expandido.

A revelação da obra e também um dos maiores (e únicos) criadores de maior construção dramática da mesma, é o vilão Adrien Toomes, o “Abutre”, que não por acaso é vivido por Michael Keaton. Logo no início do filme o personagem é apresentado de maneira clara e eficiente, dando pistas de como seu arco se desenvolverá ao longo dos atos seguintes. Diferente de muitos vilões recentes da Marvel, este possui motivações sólidas e justificadas para seus atos, principalmente embasadas no conceito subjetivo de injustiça, criando de certa forma uma empatia com o público, apesar de se tratar do antagonista. Nos momentos de maior crescimento narrativo do filme, o abutre está lá. Chegando a ponto de até, já no terceiro ato, ser o responsável pelo discurso mais forte do filme, com um monólogo alfinetando os poderosos de nossa sociedade, vulgo aqui, Tony Stark.

 

Apesar de apresentar fraquezas em alguns aspectos dramáticos, o filme não é totalmente comprometido, já que sua motivação maior é claramente o humor, muito bem executado. Há poucos momentos mais calmos, com maior intensidade dramática para a trama, já que as sequências de ação e comédia prevalecem. Mas, por mais que os momentos de comédia rendam boas cenas, os de ação já não são tão eficientes. As lutas do herói com vilões parecem todas terem o mesmo peso e formato, não apresentando entre elas uma crescente marcada para chegar ao clímax, ou confronto final. Este existe, mas não oferece uma cena muito especial e marcante, no que diz respeito às lutas e efeitos em si.

Em geral, Homem-Aranha: De Volta ao Lar se junta aos poucos bons filmes da nova safra Marvel, marcada ultimamente por se prender aos padrões nela criados, por parecerem ter dado certo algumas vezes. A diferença neste último foi assumir esse universo como um pano de fundo, uma segunda camada, que move e dá sentido a trama, mas sem maiores pretensões que a sobreponham à história e ao desenvolvimento do herói em si. Desta vez, vale a pena assistir até mesmo às duas cenas pós-crédito do filme.   

Por: Iago Kieling