Crítica do Filme “A Forma da Água”

A Forma da Água é um filme lindo e isso já fica bem claro logo na sequência de abertura: como em um conto de fadas, uma narração apresenta a história enquanto a câmera calmamente atravessa um quarto submerso por água, um corpo flutua acima da cama ao som do acordeon e não é difícil perceber que as próximas duas horas vão ser muito interessantes.

O diretor mexicano Guillermo Del Toro construiu a sua reputação em cima de temáticas de terror e conto de fadas com o uso de monstros “encantadores” em um contexto visual por vezes belo e poético. Del Toro também dirigiu filmes de ação como Blade II (2002), Hellboy (2004), e o fantástico filme de mechas e monstros gigantes, Círculo de Fogo (2013), no entanto ficou realmente conhecido pelo, já clássico, O Labirinto do Fauno (2006). Mesmo em seus filmes mais “comerciais”, Del Toro é um diretor de forte autoria própria que claramente possui uma visão e se esforça em realizá-la. A Forma da Água é um ótimo exemplo disso – o longa é provavelmente a sua obra-prima e é visível o carinho e a atenção envolvidos na produção. E Hollywood aparentemente concorda, o filme lidera a corrida do Oscar 2018 com impressionantes 13 indicações (entre elas melhor filme, melhor diretor e melhor atriz).

A atriz Sally Hawkins interpreta Elisa, uma garota muda que segue a mesma rotina todas as manhãs: acorda, coloca alguns ovos na água para cozinhar, se masturba na banheira enquanto espera e então leva alguma comida para seu vizinho, o solitário ilustrador, Giles, antes de pegar um ônibus para o trabalho. Elisa trabalha como zelador em um laboratório secreto do governo americano em meio à guerra fria, junto da sua amiga, Zelda (Octavia Spencer, também indicada ao Oscar como atriz coadjuvante), que serve como uma ótima contradição à Elisa, sempre falando muito e fazendo piadas com a amiga.

Elisa é retirada da sua rotina quando o Coronel Strickland (Michael Shannon) chega ao laboratório, trazendo consigo uma criatura que foi capturada em um rio na Ámerica do Sul. A “criatura” é um anfíbio humanóide que, comenta Strickland, era reverenciada como um Deus na sua terra natal. Elisa, curiosa, e com pena desse ser que é constantemente torturado pelo general, começa a visitar o anfíbio, e aos poucos, desenvolve com ele uma relação muito além das palavras.

A narrativa se passa em meados dos anos 60, o que contribui bastante para a estética do longa, Giles e Elisa estão sempre assistindo a números musicais antigos na televisão e a música (e a dança) possui um papel importante na construção da identidade do filme (Inclusive, bem literalmente, com uma cena surpresa mais para o final da história) No entanto, não só a música, mas a falta dela, ou melhor, o silêncio, também é um tema central na trama, assim como a solidão. Explicando o porquê da sua atração pela “criatura”, Elisa diz que ele é “a coisa mais solitária que ela já viu”, que “se ela, como ele, não emite som, o que ela é?” e que “ele não sabe que ela é incompleta e todo dia ele fica feliz em vê-la”.

Outra protagonista importante para a história de Del Toro é a água. A presença da água é constante e central para a narrativa. Elisa é uma orfã que foi abandonada perto de um rio quando bebê, ela se masturba todos os dias em uma banheira cheia enquanto ovos fervem em água, e eventualmente se apaixona por uma criatura anfíbia, representando o epítome do seu convívio com a água. A chuva é constante (e por vezes muito importante) ao longo de todo o filme, além dos pequenos elementos que convergem e acrescentam à dramaticidade: como copos derramando, água escorrendo (ou inundando), gotas que se encontram em vidros e até mesmo um pôster com as palavras “não desperdice água” que aparece às vezes. Esse cuidado temático casa perfeitamente com a beleza do próprio título, “a forma da água” na verdade são muitas formas, e somos apresentados a elas durante toda a trama.

O filme também faz uma forte crítica ao preconceito e ao racismo, tanto através da fantasiosa criatura marinha, quanto pelo próprio grupo de humanos centrais à trama – o elenco principal é composto por uma mulher que é deficiente auditiva, uma mulher negra, um homem gay e um “inimigo” declarado para a época. Todos, principalmente em vista da sociedade dos anos 60, têm bons motivos para sentir uma forte empatia com o anfíbio. O longa trabalha isso muito bem, e afinal, assim como a água, o ser humano também pode possuir muitas formas além do “comum”.

Quanto aos aspectos técnicos o longa não deixa nada a desejar: a direção é fenomenal, a fotografia é linda, a trilha sonora encaixa perfeitamente e as atuações são fantásticas. O filme é calmo e bastante sensível, pintado por tons escuros e pouca ou muita luz – dependendo do sentimento pedido pela cena, e há muito sentimento. Grandes planos abertos de locais isolados, ressaltam os personagens dentro do seu próprio mundo, e alternam entre lugares pequeninos, como corredores ou banheiros, que nunca perdem a graça. A magia persiste nas músicas, tanto no lindo tema composto para o filme, quanto nas várias músicas antigas que embalam a vida de Elisa, além dos “barulhos”, claro – sapateado, assobios e o barulho da água, compõem esse mundo que, embora tão solitário, parece nunca estar vazio. Hawkins também não precisa falar nada para povoar essa vazio e conta com uma vibrante presença em um filme onde não diz uma palavra.

Del Toro prova ser um artista de peso com uma produção elegante e repleta de pequenos detalhes. A Forma da Água é uma rara chance de presenciar um verdadeiro conto de fadas na sala de cinema e é um filme que com certeza deve ser assistido.

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