Crítica do Filme “Em Pedaços”

O mais interessante de Em Pedaços, do diretor alemão-turco Fatih Akin, é como a clássica estrutura de três atos funciona ao contar essa história – cada ato parece o seu próprio filme, inclusive mudando de gênero e tom, mas sempre amarrado a ideia universal de tragédia e sofrimento. A trama é dividida em três capítulos: “Família”, “Justiça” e “O Mar”.

O longa abre com uma filmagem caseira de um casamento na prisão entre um dos presos, Nuri Sekerci (Numan Acar), e a protagonista, Katja Sekerci, vivida pela fantástica atriz alemã Diane Kruger. A cena funciona meio como uma forma rápida de indicar que o personagem de Acar costumava ser um criminoso e que o casamento dos dois nunca foi tão “convencional”. Sete anos depois, Katja deixa o seu filho com Nuri enquanto visita uma amiga, na empresa onde ele trabalha em um bairro turco de Berlim. Quando Katja volta para encontrá-los poucas horas depois, ela descobre que houve uma explosão logo em frente da onde eles estravam e, em um segundo, ela perde o marido e o filho pequeno, mudando a sua vida drasticamente.

Tudo acontece muito rápido e logo a personagem de Kruger entra em um intenso espiral de dor e desespero, mostrado em detalhes agoniantes durante todo o primeiro ato. Enquanto Katja tenta lidar com esse forte e constante sofrimento, a polícia investiga a explosão, chegando a conclusão de que foi um ato criminoso, provavelmente ligado ao passado de Nuri como traficante. Os policiais insistem na ideia de que o marido de Katja ainda estava envolvido com o mundo do crime, e que ele provavelmente irritou as pessoas erradas, já ela, no entanto, tem certeza de que Nuri estava completamente reformado e acredita que a explosão foi causada por neo-nazistas.

No segundo ato, o filme se transforma em um drama de tribunal, acompanhando Katja durante o julgamento dos suspeitos pelo assassinato de sua família. Desde o começo, a verdadeira identidade dos culpados fica bastante clara, o filme não tenta esconder isso, pelo contrário, mas as tecnicalidades legais constantemente atrasam o processo, causando grande frustração a protagonista e a quem está assistindo ao filme. Um forte embate é criado entre o agressivo advogado de defesa, apelando à inconsistência das provas, e o advogado de Katja, focando no impacto emocional da tragédia.

Após vários minutos criando uma forte conexão emocional com Katja, o terceiro ato do filme faz um ótimo trabalho colocando a protagonista em uma situação bastante tensa onde você realmente não sabe o que pode acontecer – o longa se transforma quase em um thriller de ação. A personagem de Kruger vai atrás de uma resolução mais clara com as suas próprias mãos, mas o que ela realmente quer é apenas encontrar redenção. Esse conflito entre vingança e resolução tem um papel crucial na parte final da trama.

A estrutura de atos com gêneros e intensidades diferentes, não só tem sucesso em manter um interesse constante na história, como é um prato cheio para uma atriz do calibre de Diane Kruger – a atriz é o filme, e assistir a conturbada jornada de Katja Sekerci é um verdadeiro deleite.

O filme possui uma direção competente, uma trilha sonora original de bom gosto, composta por Josh Homme do Queens of the Stone Age, e trata do importante, e sensível, tema dos imigrantes na Europa, mesmo não sendo o foco da narrativa em si. Essa é uma produção sobre a dor e ela é bastante efetiva em transmitir esse sentimento – é impossível não sentir o desespero da personagem de Kruger ao longo de todo o filme. Em Pedaços não chegou a ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, mas ganhou o Globo de Ouro e garantiu, para Diane Kruger, o merecido prêmio de melhor atriz em Cannes. Vale a pena assistir a essa verdadeira epopeia alemã sobre o sofrimento.

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