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Crítica do Filme “Em Busca de Fellini”

Não é todo diretor de cinema que consegue inspirar outros filmes sobre a sua vida ou o seu trabalho, geralmente só os nomes mais consagrados da indústria realizam esse feito. Federico Fellini, também conhecido como Il Maestro (O Mestre), não é qualquer diretor de cinema. Conhecido pela poesia quase etérea dos seus filmes, lotados de magia e fantasia, mas sempre tratando da humanidade mais do que qualquer coisa, Fellini encantou audiências ao redor do mundo inteiro e influenciou um enorme número de diretores, como Stanley Kubrick, Woody Allen, Martin Scorsese, e continua influenciando vários outros até os dias de hoje. O diretor italiano acumulou diversas honras e prêmios do mundo cinematográfico, inclusive conquistando o Oscar de melhor filme estrangeiro dois anos seguidos: em 1957 por A Estrada da Vida e em 1958 por Noites de Cabíria. Em 1964, um dos seus filmes mais conhecidos, 8 1/2, ganha a sua terceira estatueta, e em 1993, o ano de sua morte, a academia concede ao diretor o Oscar honorário pelo conjunto de toda a sua obra.

Alguns anos atrás, a mega-produção Nine (2009) homenageava 8 1/2 de Fellini e em 2017, Em Busca de Fellini traz ao cinema uma homenagem a toda a obra do diretor, mas não é objetivamente um filme sobre ele. Semi-baseado na história da própria roteirista, Nancy Cartwright, que em 1985 foi à Itália com a esperança de conhecer Fellini, o filme trata da jornada um tanto abstrata de Lucy (Ksenia Solo), uma garota de 20 anos perdida em fantasias idealistas e românticas, herdadas pela influência de sua mãe (Maria Bello) e os filmes que elas sempre assistiram juntas. Após um evento súbito que aflige a perfeita relação de Lucy e sua mãe, Lucy segue para a cidade grande para tentar conseguir um emprego. Nada ocorre como esperado, no entanto Lucy encontra alguma fagulha de inspiração após comparecer a uma exibição de A Estrada da Vida durante um festival que acontecia na cidade. Algo nos filmes de Fellini fala com Lucy em um nível muito pessoal e ela decide ir para Itália para tentar conversar com o diretor.

A trama do filme em si parece não importar muito, o foco são as experiências. O que acontece nem sempre parece muito real, mas os sentimentos envolvidos com certeza são. O filme se passa em 1993, ano da morte de Fellini, e Lucy, portando apenas uma pilha de fitas VHS, consegue o telefone do escritório pessoal do diretor e   marca um encontro com ele através de um assistente. Experiências “concretas” não parecem interessar muito e a jornada de Lucy segue quase com um sonho na maioria das vezes. A influência do próprio Fellini é clara. Referências visuais e temáticas à obra do diretor italiano são constantes e são, de certa forma, confirmadas dentro do contexto do próprio filme, o que garante que até espectadores que não conhecem muito bem o diretor compreendam o que está sendo referenciado.

Lucy caminha pelas ruas de cidades italianas como Florença, Veneza e Roma cegamente seguindo algo que nem ela mesmo sabe o propósito. A personagem é apresentada como sonhadora ao extremo, ingênua e inocente, que não sabe muito bem o que quer fazer ou o que gosta, mas acha que encontrar Fellini vai resolver algo dentro dela. Lucy claramente está buscando algo durante toda a duração do longa e é um tanto agoniante, e igualmente libertador, acompanhar alguém tão despreparado enquanto se aventura sozinha pela Itália sem dinheiro, sem malas e sem saber falar italiano. Lucy é quase como uma tela em branco. O mundo constantemente interage com Lucy e ela é tão nova em frente a tudo, que serve como o “avatar” perfeito para quem está vendo o filme e aprendendo sobre esse mundo de sonhos junto com ela. A jornada de Lucy com certeza incita curiosidade e faz com que o espectador genuinamente se importe com a personagem e torça para que ela encontre “isso” que ela tanto quer encontrar, seja Frederico Fellini, o amor, ou provavelmente ela mesma.

O filme só funciona graças ao fabuloso trabalho de Ksenia Solo como Lucy. Não é fácil interpretar uma personagem que transmite tanto do que ela pensa através de gestos e olhares, e a atriz definitivamente consegue. O filme é sobre Lucy e como o mundo exterior se apresenta a ela e para nós espectadores. E junto à maravilhosa performance de Solo o que mais ajuda a compôr essa atmosfera etérea é a fotografia, mais precisamente a iluminação. O filme trabalha com cores e tons constantemente: do tom azulado e frio de Cleveland no começo do filme, com o tom aconchegante e amarelado do cinema no qual Lucy vê o primeiro filme de Fellini, até a Itália cheia de vida, cor e sol, mas que dependendo do humor de Lucy pode também perder a sua cor.

A exposição de luz é muito presente ao longo de todo o filme – momentos banhados por luz compõem a beleza particular e a atmosfera de sonho do filme, além das várias personagens excêntricas e situações confusas típicas de Fellini. Como citado por um dos personagens do filme: “a bela confusão”. Em busca de Fellini é uma bela confusão.

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