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Crítica do filme “Duas de Mim”

Thalita Carauta é a estrela de "Duas de Mim", filme brasileiro que estreia nesta quinta, 28 de setembro (crédito: divulgação)

Era meados de 1992, quando meu pai chegou em casa com um aparelho ultramoderno em suas mãos: um videocassete. Todo mundo ficou fascinado e fomos correndo para uma locadora, escolher um filme para estrear o eletrônico do momento. Foi consenso da família. O longa escolhido foi “Lua de Cristal”, grande sucesso da época estrelado pela Xuxa e Sérgio Mallandro.

Mas, o que tem a ver “Lua de Cristal” e “Duas de Mim” – a comédia brasileira que estreia nesta quinta, 28 de setembro, nos cinemas? Quando li, na sinopse, que o “mocinho” do filme seria o Latino, a primeira imagem que me veio à cabeça foi a cena icônica do Mallandro entrando pelo túnel em uma mobilete e saindo montando em um cavalo branco. Talvez, pela representatividade dos dois no cenário artístico em suas respectivas épocas e a falta de traquejo com a sétima arte, minha dúvida era: será que a participação do Latino seria tão “trash” quanto a do apresentador infantil dos anos 80/90?

Latino seria o novo Sérgio Mallandro? (Crédito: divulgação)

Até que o meu “pré-conceito” inicial com a escalação do cantor pop não se justificou tanto assim. Com uma participação que não comprometeu o filme, ele dá vida ao Chicão, um personagem que trabalha como faxineiro e faz apresentações como cover oficial do próprio Latino. Mas, com tanto talento por aí, por que não chamam um ator de verdade? Às vezes me esqueço que filmes são comerciais e precisam faturar.

 

A História

O filme conta a história de Suryellen (Thalita Carauta), uma cozinheira que precisa dar conta sozinha da casa, da família e de dois empregos. Um dia, cansada de tudo, ela encontra uma “feiticeira” que lhe oferece um “bolo dos desejos”. Ao comer, ela tem seu pedido realizado: se dividir em duas, para conciliar todas as suas empreitadas. Porém, a cópia é o oposto da original e se envolve em diversas confusões ao longo da trama.

O longa marca a estreia da diretora Cininha de Paula na telona. Acostumada a dirigir para Teatro e TV, “Duas de Mim” utiliza a mesma linguagem de programas da telinha. No cinema, me senti vendo uma atração da TV Globo, daquelas que passam em uma terça-feira qualquer e que você acaba dormindo no sofá no meio da exibição.

Cininha de Paula e Thalita Carauta (Crédito: divulgação)

Cheio de clichês – como um desejo oculto sendo realizado por uma magia, a patroa malvada (Alessandra Maestrini), o ex-marido malandro (Márcio Garcia) e o talento enrustido da protagonista – o roteiro torna tudo bem previsível e meio óbvio. Não precisa de spoilers para saber o final.

 

Comédia ou Drama?

O filme deveria ter se concentrado mais na comédia, pois quando você vê o elenco, o título e a sinopse, você esperar rir. E isso não aconteceu comigo. Somente em três raros momentos o longa me tirou um leve sorriso. Gargalhada, nenhuma. A comédia se desvirtuou e descambou para o drama mais do que deveria e, assim, não conseguiu nem emocionar e nem fazer sorrir.

Falando nessa duplicidade, as duas personagens de Thalita Carauta também são opostas, o que exigiram duas facetas da atriz. Thalita é conhecida por papéis coadjuvantes em programas de humor na TV e, para segurar um longa como protagonista, onde ela está em cena em praticamente todo o filme, ela mostrou talento e muito carisma. Apesar de estar bem mais confortável nas cenas de comédia (vividas pela cópia), que é, notoriamente, a sua praia.

Além da dramaticidade da comédia, sem sucesso, tenho que citar mais dois problemas que me incomodaram bastante no filme. O primeiro: Thalita tem 34 anos e tem uma irmã adolescente (segundo a sinopse oficial) vivida por Letícia Lima que é, apenas, um ano mais jovem do que a protagonista. Para mim, a personagem não colou.

O segundo problema, na verdade, foram algumas incoerências de tempo e espaço da narrativa, que deixou transparecer ou a falta de uma pesquisa mais apurada sobre a realidade do pano de fundo (o mundo da gastronomia, tão em alta ultimamente) ou uma negligência proposital que, por se vender como comédia, o enredo poderia trafegar num território em que tudo é permitido, o que para mim não vale.

Enfim, o filme não me empolgou, não me convenceu, não me fez rir, nem refletir… É mais uma comédia comercial, mais fracas até do que tantas outras que o cinema brasileiro vem produzindo nos últimos anos.

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