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Crítica do Filme “Depois Daquela Montanha”

Depois Daquela Montanha é a prova de que nem um elenco forte (ou no caso um duo de estrelas de porte) consegue salvar uma produção pouco inspirada. Os primeiros dez minutos do longa condensam precisamente a sua essência: clichês bastante genéricos, constante exposição narrativa para “desenvolver” os personagens e conflitos que se desenrolam em um ritmo muito estranho – coisas acontecem e coisas são resolvidas com quase nenhum respiro – qualidade pouco atrativa em um filme de sobrevivência, onde se espera constantemente pelo próximo obstáculo e uma resolução satisfatória de igual ou maior peso.

O filme, do diretor palestino Hany Abu-Assad (indicado ao Oscar por melhor filme estrangeiro em 2006 por Paradise Now e de novo em 2013 por Omar), trata de dois estranhos (Idris Elba e Kate Winslet) presos por uma nevasca em um aeroporto em Idaho nos EUA, e que precisam chegar aos seus destinos o mais rápido o possível. Elba por que é médico e irá realizar uma cirurgia no dia seguinte, e Winslet por que irá perder o seu próprio casamento. Eles decidem então por fretar um jatinho, o piloto sofre um ataque cardíaco e o avião caí em meio às desertas montanhas nevadas do estado de Utah. Juntos eles tem que tentar sobreviver às condições extremas e tentar voltar para casa. Em meio aos obstáculos eles percebem que possuem personalidades opostas: Elba é racional e calculista e Winslet é instintiva e sensível. Um é o cérebro e o outro, o coração. O maior ponto positivo da produção, sem dúvida, são os protagonistas. Tanto Elba quanto Winslet são atores incríveis e com carisma de sobra. Imagino que ambos tenham feito o melhor que poderiam fazer com o material que lhes foi entregue.

Acho importante falar sobre como o título do filme pode afetar o que ele representa e conduzir o telespectador à determinada expectativa ou sentimento. Acredito que a escolha do título em português do Brasil só tenha contribuído ainda mais na certa breguice que o filme exala em diversos momentos. The Mountain Between Us (no original), A Montanha Entre Nós, imediatamente evoca o desespero do momento da sobrevivência e representa brilhantemente a própria distância entre os protagonistas, cujas personalidades operam como opostas uma à outra. Ter encontrado o título perfeito é um dos maiores méritos que podem ser atribuídos ao filme e o público da terra brasilis nem ao menos recebe esse prêmio de consolação. Depois Daquela Montanha coloca o foco diretamente nos eventos após o clímax e a tensão, evoca resolução – e tédio, por conseguinte.

Mais ou menos quinze minutos do longa se passam “depois daquela montanha” e, sinceramente, muito mais tempo do que o necessário. Não acho que o diretor soube decidir sobre o quê seria esse filme: sobre a relação dos dois protagonistas pós-trauma, ou sobre os vários feitos incríveis realizados durante a sobrevivência nas montanhas. Sim, a segunda opção é muito mais interessante e, sim, poderia co-existir com a primeira opção tranquilamente, se isso fosse bem realizado. E esse não é o caso – a parte “pós-montanha” conseguiu até mesmo “aniquilar” alguns méritos do longa e, spoilers à parte, o final talvez seja a parte mais brega de todo o filme. Faltou coragem por parte dos roteiristas. Se os protagonistas estão em constante perigo de morte, faça a audiência sentir isso, incomode mais, prolongue a tensão e o suspense minimamente. Depois Daquela Montanha é confortável demais para um filme de sobrevivência.

O conforto temático e a falta de inspiração também se encontram nos aspectos mais técnicos do filme, como a direção de fotografia e a trilha sonora. Depois Daquela Montanha nunca consegue cruzar a fronteira do okay. Sequências e cenas que possuem o potencial de serem belíssimas, dada a beleza natural das locações, são apenas previsíveis e por vezes sem sal – claro que com algumas exceções. No entanto, a trilha original composta por Ramin Djwadi consegue ser nada memorável quase 100% do tempo. Djwadi é famoso por compôr a trilha de Game of Thrones, então o problema não é a falta de talento. Algo certamente aconteceu durante a produção de Depois Daquela Montanha para o resultado final ser tão medíocre. O longa conta com um diretor aclamado e respeitado, um compositor inspirado e uma dupla de atores fantásticos como os pilares da história. Talvez o problema seja o material original (o roteiro é baseado no romance homônimo por Charles Martin), o próprio roteiro adaptado (muitas das falas são absolutamente terríveis, por exemplo, mas Idris Elba com certeza garantiu as melhores) ou talvez o filme tenha tido uma produção caótica mesmo – e possivelmente tenha sofrido com excesso de pitaco da produtora também.

Espere Depois Daquela Montanha passar na Tela Quente, divirta-se um pouco por essas duas horas e depois, inevitavelmente, siga a sua vida e eventualmente esqueça que viu Depois Daquela Montanha, não de propósito, claro, só por que você não vai ter um bom motivo para se lembrar.

 

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