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Crítica do Filme “Blade Runner 2049”

Blade Runner 2049 prova que ressuscitar velhas franquias pode ser uma coisa positiva. Já se passaram 35 anos desde que conhecemos a história do caçador dos andróides, conhecidos como replicantes, Deckard (Harrison Ford), no clássico do cyber-noir, Blade Runner (1982). O filme, baseado no conto de Philip K. Dick, Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? não fez muito sucesso na época, tanto com a crítica quanto com o público geral, no entanto veio a se tornar um marco incontestável na história do cinema. Blade Runner estava à frente do seu tempo e soube prever muita coisa que viria a ser o cotidiano da nossa sociedade moderna, além de ajudar a  popularizar o gênero cyberpunk e a própria ficção científica no cinema. Cidades cinzas e chuvosas, rodeadas por anúncios holográficos gigantes e barulhentos pintam o mundo tecnológico e decadente de Blade Runner, cenário perfeito para a temática de cunho filosófico da história – O que é estar vivo? O que define a vida? Andróides sonham com ovelhas elétricas? Ou simplesmente sonham com ovelhas, como os humanos?

O diretor Ridley Scott havia recém terminado outro clássico da ficção científica no cinema, Alien – O Oitavo Passageiro (1979) quando dirigiu Blade Runner,  consagrando o seu nome como um dos grandes da ficção científica da sétima arte. A história do primeiro filme é simples, o policial de Los Angeles, Deckard, é um blade runner – um caçador de replicantes – e é incumbido com a missão de localizar e “aposentar” – termo da história para matar – um grupo de replicantes fugitivos pertencentes ao modelo antigo, Nexus-6. Roy Batty (Rudger Hauer) lidera o grupo de replicantes que sabem da sua curta expectativa de vida (quatro anos) e procuram prolongá-la, ou simplesmente, um significado para a sua existência. Enquanto isso, o próprio Deckard se envolve com uma replicante e duvida se ele mesmo não pertence à raça de andróides.

Embora possua momentos de ação, típicos de filmes policiais, o primeiro Blade Runner é um filme lento e introspectivo, disposto a abrir um diálogo sobre profundas questões do sentido da vida e o tempo que passamos nesse mundo. Com o anúncio de 2049, logo pairava uma dúvida: será que o mundo de grandes blockbusters hollywoodianos de 2017 consegue produzir uma sequência para uma obra como Blade Runner, sem cair na armadilha de criar apenas mais um filme de ação genérico? Fico feliz de anunciar que sim, Blade Runner 2049 consegue magistralmente equilibrar o alto valor de produção hollywoodiano com o espírito reflexivo do primeiro filme.

Esse feito não seria possível sem o diretor escolhido para comandar a trama, Denis Villeneuve, indicado ao Oscar ano passado por A Chegada (2016), e considerado por muitos, um dos diretores mais interessantes da atualidade. Villeneuve já está confirmado para dirigir o remake de outro clássico da ficção científica, Duna, e muito provavelmente estará a frente do próximo James Bond. E assistindo o novo Blade Runner fica fácil de entender o porquê do interesse no diretor.

Também se passaram 30 anos na Los Angeles futurista de Blade Runner 2049, e dessa vez acompanhamos o blade runner e replicante, K (Ryan Gosling), em sua missão para desvendar um segredo ligado ao policial Deckard, 30 anos no passado. K parece ser um dos poucos replicantes em seu meio de trabalho e não demonstra muito interesse em socializar com outras pessoas, assim ele mantém um relacionamento com um holograma-inteligência artificial chamado Joi (Ana de Armas) em sequências que lembram bastante o filme Ela (2013) e contribuem positivamente para a questão central da saga, já que K se relaciona com “alguém” ainda mais artificial do que ele e ambos demonstram amor um pelo outro, ou algo muito parecido. Ryan Gosling é um ótimo ator e isso pode ser percebido em muitas das cenas mais introspectivas durante a trama. Embora interprete um andróide, a jornada emocional de K é poderosa e em questão de carisma e presença, Gosling não fica devendo em nada para Harisson Ford no filme original.

Outro núcleo importante para a história de 2049 é a evolução da Corporação Tyrell do primeiro filme, empresa que produzia os replicantes. Agora comandada por Niander Wallace, vivido por Jared Leto, a empresa se mantém empenhada em fabricar replicantes e trabalha em aumentar a produção e na criação de novos modelos. Honestamente, não acredito que esse seja o melhor papel de Leto e a sua participação na tela é bastante reduzida. Quem realmente brilha é a sua “secretária” replicante, Luv (Sylvia Hoeks) que funciona mais ou menos como uma Rachael do primeiro filme, só que muito mais ameaçadora e badass. 

Blade Runner 2049 é lindo. É Visualmente lindo, como poucos filmes grandes são ultimamente. A iluminação e a fotografia de maioria das cenas fazem você praticamente esquecer que está sentado em uma sala de uma grande rede de cinemas e se imaginar em um museu ou uma galeria de arte. A direção de arte tem que ser apreciada, e não é difícil, assim como no filme original na época do seu lançamento. O culpado dessa vez é o diretor de fotografia Roger Deakins, que possui nada mais nada menos que 13 indicações ao Oscar no seu currículo. Por favor, academia, já está na hora, o cara merece.

Algo que também chama atenção em 2049, muito como seu irmão mais velho cinematográfico, é a trilha sonora. Vangelis chocou a todos com a trilha perfeita para a atmosfera cyber-noir do primeiro filme, composta por sintetizadores e arranjos monotonais ambientando a decadente cidade de Los Angeles. E Hans Zimmer e Benjamin Wallfish homenageiam Vangelis perfeitamente. Até sonoramente o filme deixa claro que é, afinal, um Blade Runner.

Embora possua a impressionante duração de quase 3 horas de filme (praticamente uma hora a mais que o seu antecessor) não acredito que vale a pena nem ao menos entregar a premissa básica da história. Deixe Blade Runner 2049 lhe surpreender e lembrar você por que ainda é bom ir ao cinema. O novo Blade Runner definitivamente não é um filme para todos e não é um filme “fácil”. Entretanto, 2049 é um filme para quem quer ser um pouco desafiado no grande circuito de cinema para variar, e por isso, definitivamente merece respeito. Se você quiser ver um filme bem feito (o que é definitivamente agradável de vez em quando), pode confiar, embarque nessa jornada e vá assistir Blade Runner 2049.

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