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Crítica do Filme “Assassinato no Expresso do Oriente”

A escritora inglesa Agatha Christie é considerada um dos maiores nomes no gênero dos romances policiais (histórias de detetive) e, em meio a mais de 60 livros, uma das suas obras mais famosas é o Assassinato no Expresso do Oriente de 1934, talvez a mais conhecida das diversas aventuras do renomado detetive belga Hercule Poirot, seu personagem mais recorrente. Referências e adaptações da história sobre o maior caso que o detetive Poirot já desvendou, podem ser facilmente encontradas através de toda a cultura pop e em diversas mídias diferentes, como no rádio, na televisão e, é claro, no cinema.

E foi apenas 40 anos após a publicação do livro, em 1974, que o diretor Sidney Lumet lançou a sua aclamada adaptação para as telonas, conquistando seis indicações ao Oscar e com um elenco lotado de estrelas como Albert Finney, Sean Connery, Anthony Perkins, Lauren Bacall e Ingrid Bergman (a única que levou a estatueta para casa, recebendo o Oscar de melhor atriz coadjuvante).

Em 2017, coube ao ator e diretor britânico Kenneth Branagh a tarefa de dirigir e estrelar (como o detetive Hercule Poirot) a nova adaptação do famoso livro de Agatha Christie. Uma missão difícil, já que muitos fãs da obra, e de tramas policiais em geral, consideram o filme de 1974 um clássico inestimável. O jeito foi encher o elenco com nomes de peso novamente, em meio aos doze passageiros encontramos atores como: Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Judi Dench, Josh Gad (Lefou de A Bela e a Fera), Daisy Ridley (Rey de Star Wars) e até mesmo o famoso bailarino russo Sergei Polunin, em uma surpreendente performance como o irritadiço Conde Andredrenyi.

Esse tipo de filme é conhecido como um ensemble: vários personagens e atores dividem importância similar no decorrer da trama, embora o personagem de Branagh, o detetive Poirot, seja claramente o protagonista. Esse foi um ponto bastante criticado no longa: tantos atores incríveis envolvidos e muitos deles não tiveram espaço para brilhar. Johnny Depp, por exemplo, participa de talvez um terço do filme. Cruz e Dafoe também pouco encontram o que fazer em meio a confusão dentro do Expresso do Oriente. Com a exceção dos personagens de Daisy Ridley e Josh Gad, os outros basicamente tem só uma cena ou um momento específico dedicado a eles.

Isso pode ser explicado pela própria natureza da trama: Um assassinato ocorre a bordo do trem (o Expresso do Oriente) e cabe ao famoso detetive Hercule Poirot investigar todos os doze ocupantes e de descobrir o culpado. O Poirot de Branagh rouba o filme. Muito do tempo da trama é dedicado a demonstrar suas incríveis capacidades dedutivas e explorar a sua personalidade bastante excêntrica. O próprio personagem comenta que as imperfeições das coisas ao redor são perfeitamente claras aos seus olhos, e para ele, isso é uma benção e uma maldição. Poirot se apresenta tão fora da realidade, e por vezes sobre-humano, que se torna engraçado em alguns momentos, e a interpretação de Branagh parece almejar justamente isso. Esse aspecto é ligado ao grande X da questão sobre Assassinato no Expresso do Oriente de 2017, o filme é menos mistério e drama policial e mais uma comédia leve que, por acaso, se passa em torno de um assassinato. O mistério está lá, e é interessante desvendá-lo junto com o detetive, mas o tom é definitivamente leve.

Todos os atores estão ótimos no papel e isso era de se esperar. Mesmo com pouco tempo de tela, Johnny Depp protagoniza uma das melhores cenas do filme: quando o seu personagem, Edward Ratchett, senta-se à mesa com Poirot para fazer uma proposta de negócios. Michelle Pfeiffer passa por uma transformação fantástica ao longo da trama, entrega a performance brilhantemente e é a responsável pelo momento de maior tensão do longa. Josh Gad também está de parabéns e convence muito no seu papel como o assistente alcoólatra do personagem de Depp.

É importante ressaltar que a a direção de fotografia do filme funciona muito bem e com certeza foi uma agradável surpresa de Haris Zambarloukos, diretor conhecido por filmes como Mamma Mia e o primeiro Thor. A contradição entre os vários planos de câmera bastante abertos em lugares belíssimos, como Istanbul e Jesusalém, e o espaço particularmente horizontal de um vagão de trem é muito interessante. Diversas cenas dentro do trem, nesse cenário tão limitado, possuem uma fotografia extremamente inspirada. Em contraste, é claro o abundante uso do CGI (animação gráfica) nas cenas externas do trem, o resultado não é visualmente agradável e, em certos, quase estraga o que a fotografia conquista.

A verdade é que o novo Assassinato no Expresso do Oriente talvez nem devesse existir. Existia uma real necessidade de uma nova adaptação do clássico romance de Agatha Christie? Imagino que não, mas o resultado é um filme divertido, com boas atuações, bonito visualmente (na maioria das vezes), com uma trilha sonora adequada e um mistério a ser desvendado. A ida ao cinema não é obrigatória, no entanto acredito que vale a pena ser assistido.

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